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Os primeiros bons sinais da retomada econômica no Brasil

Os riscos e percalços que ainda existem só serão vencidos se o governo seguir firme na política de entendimento que adotou nas últimas semanas

Por Luisa Purchio Atualizado em 23 out 2020, 10h07 - Publicado em 23 out 2020, 06h00

No auge da pandemia, com as cidades paralisadas pela quarentena, os brasileiros se confrontaram com alguns números inusuais no noticiário (além, evidentemente, da trágica escalada de casos e mortes provocados pelo coronavírus). Com as lojas fechadas e as pessoas confinadas em casa, as vendas de produtos como roupas e outros artigos de vestuário despencaram de forma tão avassaladora que nenhuma estratégia de comércio on-line era capaz de promover a recuperação. O mesmo aconteceu com o setor de automóveis, em que produção e vendas desceram a índices inimagináveis nos últimos setenta anos, até bater em zero. Felizmente, foi um fenômeno de curta duração, mas tão assustador que deixou marcas profundas. Afrouxada a quarentena, as máquinas voltaram a ser acionadas e em alguns segmentos giram com uma velocidade ainda maior que antes da crise. Além de se desdobrarem para atender à demanda reprimida, as indústrias enfrentam falta de matéria-prima. Comprar produtos prosaicos, como fio de algodão, virou um problemão para tecelagens e confecções. Além da dor de cabeça provocada nos empresários do setor, tal situação representa um paradoxo: é um sinal alvissareiro de que o consumidor finalmente está de volta.

Os números comprovam esse início da retomada — ainda que meio atabalhoada. No setor têxtil, o índice de produção física medido pelo IBGE, que estava em 81 pontos em fevereiro, caiu para 38 em abril e subiu para 79 em agosto. Exibidos na forma de gráfico, esses dados formam uma clara “curva em V”, termo que se tornou popular para descrever a tão desejada recuperação. A mesma letra aparece nas cifras de outros segmentos. Em alguns, a retomada abrupta levou os resultados a um patamar até mais alto do que no início do ano. A produção de veículos chegou, no terceiro trimestre, a pouco mais de 600 000 unidades, 2,69% a mais que no primeiro trimestre e mais de quatro vezes o número do segundo trimestre. Já o índice de material de construção ficou em 125,4 pontos, em agosto, ante 96, em janeiro de 2020, desenhando um gráfico com subida ainda mais íngreme. Alguns recordes foram batidos. A produção de papelão ondulado, item que funciona como importante indicador para a indústria por ser usado como embalagem para uma infinidade de produtos, registrou picos em agosto e alcançou o ponto mais alto desde o início da série histórica, em 2005. Uma dinâmica similar de recuperação ocorreu com a produção de plástico e de eletroeletrônicos.

No âmbito das commodities, a demanda também está aquecida: a produção da soja brasileira bate recordes, com vendas antecipadas até a colheita de 2022. O setor agropecuário, inclusive, pouco sofreu na crise. Tendo a China como principal destino, ele se beneficiou de o país asiático ter controlado a pandemia mais cedo e voltado a consumir antes que o resto do mundo, encomendando grãos e até produtos em que é autossuficiente, como o aço. “Este ano, apesar dos impactos da pandemia, o comércio entre os dois países, em vez de diminuir, está aumentando. A China é responsável por mais de 60% do superávit comer­cial do Brasil”, diz o diplomata Qu Yuhui, ministro conselheiro da Embaixada da China em Brasília.

GUARDIÃO DAS CONTAS - O ministro Paulo Guedes: apoio do presidente e garantia de controle nos gastos – Marcos Corrêa/PR

Um fator crucial para o aquecimento rápido de alguns setores da economia foi o auxílio emergencial do governo. “As políticas de estímulo foram essenciais para evitar uma catástrofe maior e houve uma mudança na cesta de consumo das famílias”, diz Silvia Matos, pesquisadora de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre). No começo da pandemia, em fevereiro, o consumo se concentrava em itens essenciais, como alimentos, produtos de higiene pessoal e remédios. Com o auxílio emergencial, porém, até bens duráveis passaram a ser incorporados a essa lista. O benefício, no entanto, tem prazo de validade e, com a complicada situação fiscal brasileira, dificilmente será estendido além de dezembro. O ministro da Economia, Paulo Guedes, tem deixado claro que o governo só poderá manter o programa ou criar um substituto se fizer cortes em outras áreas, devido ao alto grau de endividamento atual. Se essa premissa não for respeitada, preocupações com a dívida pública poderão afugentar os investidores e pôr em risco a retomada ainda incipiente.

Há também circunstâncias conjunturais que impactaram na recuperação — ainda que mais recentes. Se a atitude errática do governo provocava incerteza e cautela no mercado, tal sentimento começou a refluir nas duas últimas semanas. Desde julho, divergências severas marcaram o debate sobre a estratégia a ser adotada. De um lado, de maneira correta, o ministro da Economia, Paulo Guedes, se alinhava à austeridade, de forma a não comprometer as contas públicas e o teto de gastos. Do outro, setores da administração federal se posicionavam a favor de investimento pesado em obras de infraestrutura e de reforços dos programas de amparo social, sem demonstrar preocupação com as limitações orçamentárias. Os sinais contraditórios verbalizados pelo presidente Jair Bolsonaro, que ora se encantava com o apelo eleitoral das medidas “fura-teto”, ora ponderava os riscos apontados por Guedes, também provocavam confusão.

EXPORTAÇÃO - Colheita de soja: alta na demanda chinesa estimulou a antecipação de vendas até a safra de 2022 – Dirceu Portugal/Fotoarena

Isso até a razão falar mais alto que vaidades e divergências conceituais. Nas últimas semanas, um amplo esforço de entendimento começou a ser articulado. O ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, visto por alguns como o líder da ala dos “fura-teto”, deixou claro que não é contra a responsabilidade fiscal, recolheu-se e parou com as declarações que disparava contra Paulo Guedes. Em paralelo, Bolsonaro tratou de demonstrar de forma inequívoca seu apoio incondicional às ideias do ministro da Economia. Na mesma direção, estabeleceram-se as bases de um entendimento entre Executivo e Legislativo, mostrando que as duas esferas de poder podem se alinhar em prol de objetivos comuns. Em termos de agenda, a ideia é passar a autonomia do Banco Central e a lei do gás ainda antes das eleições, deixando a PEC emergencial, relativa ao Orçamento, renda cidadã e desonerações para depois do dia 15 de novembro (mas com votação ainda neste ano). Se o cenário atual é mais favorável, isso não significa que os desafios para a retomada são pequenos. Ao mesmo tempo que o varejo, setores da indústria e a agricultura apresentam capacidade de puxar a volta da atividade, a retomada tem sido desigual. O reaquecimento dos serviços, por exemplo, é mais desafiador e depende de um cenário com vacinação e pandemia controlada. A necessidade de isolamento social motivou até a criação de um novo termo: a economia low touch (de baixo contato, na sigla em inglês). Trata-se de um novo modus operandi nas empresas, com a diminuição das interações físicas e a volta cuidadosa dos restaurantes, cinemas e atividades de turismo e lazer. As classes média e alta também têm potencial para gastar mais com serviços em 2021, em um cenário sem pandemia. “E esse movimento deve ter um efeito mais positivo que o do fim do coronavoucher”, estima Pedro Renault, economista do Itaú Unibanco. O Indicador de Incerteza da Economia (IIE-­Br) da Fundação Getulio Vargas sustenta esse otimismo, com uma queda de 160,3 para 145,8 entre agosto e setembro. Apesar da melhora, ainda está 9 pontos acima do registrado antes da pandemia. O Índice de Confiança Empresarial (ICE) também apresentou uma recuperação, subindo 3 pontos em setembro, para 97,5 pontos, 1,5 ponto acima de fevereiro, um sinal de esperança para o futuro. Mas o caminho é longo. O governo, por exemplo, ainda tem muito o que fazer, como aprovar as tão prometidas reformas estruturais, agora adiadas para depois das eleições.

Publicado em VEJA de 28 de outubro de 2020, edição nº 2710

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