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Recursos economizados no Brasil seguem travados por incerteza sobre futuro

Enquanto isso, trilhões de dólares poupados na pandemia já começam a fluir nos países ricos

Por Luisa Purchio Atualizado em 18 mar 2021, 23h09 - Publicado em 12 mar 2021, 06h00

O instinto de autopreservação faz com que os consumidores optem por guardar o máximo de dinheiro que puderem em épocas de crise. Com a Covid-19 aumentando os riscos de desemprego e de diminuição da atividade econômica, não foi diferente. O índice de poupança em 2020 disparou em países robustos economicamente, como Estados Unidos, China e Japão. De acordo com um levantamento da Bloomberg Economics, essas nações, somadas ao Reino Unido e à Itália, França, Espanha e Alemanha, acumularam 2,9 trilhões de dólares em recursos financeiros adicionais desde o começo da pandemia, no ano passado. Esse “colchão” é agora uma das grandes esperanças para a recuperação econômica global.

Reabertura de lojas

Com a gradual vacinação da população e a reabertura de lojas, restaurantes, cinemas e locais turísticos, os economistas acreditam que esse dinheiro estimulará a atividade e será um propulsor importante para a roda da economia. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde a poupança extra alcançou 1,5 trilhão de dólares, calcula-se que, se todos esses recursos jorrarem para o consumo, o PIB poderá crescer 9% em 2021, em vez dos 4,6% estimados. Na quarta-feira 10, as esperanças foram renovadas com a reabertura da economia em grande parte do país. Dos cinquenta estados, apenas nove funcionavam com algum tipo de restrição na maioria de seus negócios. Ajuda muito o fato de o governo do novo presidente, Joe Biden, ter avançado com as imunizações mais rapidamente que o esperado. E a poupança americana pode continuar se expandindo fortemente, agora que os democratas conseguiram aprovar no Congresso um novo pacote de 1,9 trilhão de dólares de ajuda para a economia — poderoso a tal ponto que muitos economistas já até temem pelo descontrole da inflação no país.

Economia do Brasil

No fim do ano passado, o ministro da Economia, Paulo Guedes, e a sua equipe contavam com fenômeno parecido para puxar a retomada da economia brasileira. O otimismo era tal que se acreditava que nem seria necessária a extensão do auxílio emergencial, que deixou de ser pago em janeiro. Afinal, o brasileiro tinha acumulado, em 2020, uma poupança extra de 250 bilhões de reais. Para o Banco Central, tal reserva se devia a dois motivos. O primeiro era circunstancial, já que mesmo os consumidores de maior renda não podiam gastar com tantos estabelecimentos comerciais fechados. O outro foi, digamos, preventivo, uma vez que os brasileiros preferiram diminuir gastos, para poder enfrentar dias mais duros que poderiam vir pela frente.

RETROCESSO - Comércio no centro de Salvador: sob ameaça de lockdown -
RETROCESSO - Comércio no centro de Salvador: sob ameaça de lockdown – Jefferson Peixoto/Futura Press

Durante a pandemia, o brasileiro elevou o índice de poupança de 12,5% em relação ao PIB, em 2019, para 15%, em 2020. Em certo ponto do segundo semestre, esse indicador chegou ao pico de 19%. Ao que tudo indica essa baixa no fim do ano levou o brasileiro a gastar um pouco da poupança extra — o que explica o aumento do PIB em 3,2% no quarto trimestre.

Tudo estava de acordo com os planos de Guedes, mas, como se sabe, a segunda onda da pandemia veio e, junto com uma nova variante do coronavírus surgida em terras brasileiras com maior capacidade de contágio, varreu as esperanças de uma retomada mais robusta para o início de 2021. “A diminuição da poupança aconteceu de forma muito marginal”, diz Isabela Tavares, economista da Tendências. “Uma redução gradual pode acontecer ao longo do segundo semestre, mas isso só ocorrerá sem as incertezas sobre a crise sanitária.”

Agora, o governo tenta, ao trazer de volta o auxílio emergencial, salvar o PIB do segundo trimestre e evitar que o Brasil entre de novo numa recessão técnica. O mercado dá como certa uma queda do PIB nos primeiros três meses de 2021. Boa parte dos analistas esperava recuperação no segundo trimestre, mas as previsões foram baixadas para uma queda do PIB em torno de 0,5%, segundo o economista-chefe da gestora Asa Investments, Gustavo Ribeiro. O Itaú Unibanco estima que se a economia estivesse se abrindo e não fechando, como acontece agora, o PIB do ano poderia crescer 5%, em vez de 3,26%, conforme a média de expectativas do mercado.

Para que as previsões mais pessimistas não prevaleçam, será importante que o governo consiga principalmente acelerar a vacinação, seguindo a mensagem transmitida por Guedes nas últimas semanas: sem o controle da pandemia, não tem recuperação econômica. Mesmo que sobre dinheiro no bolso de parte dos brasileiros.

Publicado em VEJA de 17 de março de 2021, edição nº 2729

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