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Diretores da Astra viraram acionistas de Pasadena — sem pagar nada por isso

Presidente da empresa belga confirmou ter 7% de participação na joint venture, enquanto os demais diretores detinham 1,7%

Por Ana Clara Costa 5 abr 2014, 19h47

A Petrobras e a Astra Oil não foram as únicas sócias da refinaria de Pasadena. Logo após a estatal brasileira adquirir 50% do negócio por 360 milhões de dólares, a Astra firmou um acordo interno com seus funcionários atribuindo-lhes participação no negócio, segundo documentos obtidos pelo site de VEJA na Justiça do Texas. O porcentual foi retirado da fatia da Astra e transferido a alguns de seus diretores. O valor pago pelas ações, segundo depoimentos dos próprios executivos, foi zero. Mike Winget, então presidente da Astra, ficou com 7% das ações, enquanto o brasileiro Alberto Feilhaber e outros diretores abocanharam cifras mais singelas – de 1,7%.

Em seu depoimento na Câmara de Arbitragem, Feilhaber reconheceu que a Astra lhe havia oferecido participação no negócio. Questionado se ele havia desembolsado algo por elas, o executivo, visivelmente nervoso, afirmou que não sabia. “Então essa participação lhe foi dada?”, questionou um dos árbitros. “Eu acho que sim. Eu acho que foi algo como um bônus, algo assim”, disse Feilhaber, de maneira vaga.

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Em outros depoimentos, diretores da Astra, incluindo o presidente Mike Winget, detalharam melhor o modelo de participação. Em vez de receberem bônus pelos resultados alcançados pela empresa belga, os executivos poderiam escolher ser premiados com ações da refinaria de Pasadena. Em troca de e-mails entre Winget e Chuck Dunlap, um dos poucos funcionários provenientes da Astra que ainda estavam em Pasadena em julho de 2008, Dunlap deixava claro que a única razão de estar ainda no grupo era a perspectiva da venda da participação da Astra para a Petrobras – e, consequente, o valor que embolsaria sendo acionista.

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Dunlap questionava Winget se ele continuaria protegendo seus interesses de acionista, mesmo se a situação se tornasse insustentável em Pasadena e ele se visse obrigado a pedir demissão. Dunlap pedia uma confirmação por escrito da existência do acordo que dividia as ações entre alguns diretores. “Se você naufragasse em seu barco na Costa Rica ou batesse a cabeça numa prancha de surfe, eu não iria querer ter de convencer Gilles (Samyn, presidente da controladora da Astra) dos termos do acordo que nós firmamos, sobretudo porque os termos desse acordo não estão claros”, escreveu o diretor.

Winget respondeu tentando tranquilizar o subordinado. Afirmou que garantiria o pagamento da participação a todos os envolvidos, não importasse o valor da venda da refinaria. “Eu não posso garantir qual valor será porque ainda não sei. Mas você receberá o mesmo patamar que o resto de nós, ajustado ao porcentual que você detém”, disse o então presidente.

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Os documentos da Justiça americana não confirmam se a diretoria da Astra e alguns de seus representantes na refinaria de Pasadena, de fato, receberam seu porcentual correspondente pela venda à Petrobras. Mas, caso Winget tenha honrado o acordo firmado com os funcionários e convencido a Bélgica a aceitá-lo sem vetos, ele próprio teria recebido cerca de 50 milhões de dólares ao fim do litígio, enquanto Feilhaber teria abocanhado 12 milhões de dólares. Winget, atualmente, está aposentado – e o comando da Astra Oil Trading nos Estados Unidos está nas mãos do brasileiro Feilhaber, que acumulou mais de vinte anos de experiência como trader da Petrobras.

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