Telas destruídas de Klimt são resgatadas com a ajuda da tecnologia
Com a aliança entre a história da arte e novas técnicas, foi possível, agora, restaurar as supostas cores originais das obras
Pouco antes do fim da II Guerra, uma divisão blindada do Exército alemão estava estacionada no Castelo Immendorf, na Áustria. Desde 1942, o local abrigava uma variedade de obras de arte confiscadas pelos nazistas ao longo do conflito. Da coleção, faziam parte telas do pintor austríaco Gustav Klimt (1862-1916), três delas comissionadas pelo governo de seu país no fim do século XIX. Acuados pelo Exército Vermelho que se aproximava, os soldados transformaram o prédio em uma grande armadilha, com bombas incendiárias armadas para disparar quando os soviéticos chegassem. Em 8 de maio de 1945, dia da derrocada de Hitler, o castelo foi tomado por chamas e tudo que estava em seu interior destruído, inclusive, é claro, o trio de exuberantes e ousadas pinturas de Klimt, das quais restaram apenas fotografias em preto e branco feitas em 1900 por Moritz Nähr. Graças a uma aliança entre a história da arte e a tecnologia, foi possível, agora, restaurar as supostas cores originais.
A origem das chamadas Pinturas das Faculdades remonta a 1894, quando Klimt e o pintor Franz Matsch receberam do Ministério da Educação da Áustria uma encomenda para o salão de festivais da Universidade de Viena. Cinco telas foram planejadas, uma peça central e representações das quatro principais faculdades vienenses — daí o nome dado a elas. Matsch faria a principal e a de Religião, e Klimt ficaria com as representações de Filosofia, Medicina e Jurisprudência. Quatro anos depois, ao exibi-las em exposições independentes de seu grupo artístico reformista, o artista chamou a atenção para suas alegorias exuberantes, coloridas e cheias de simbolismo das disciplinas ensinadas nos cursos superiores. E também atraiu a ira dos setores mais conservadores da sociedade, o que fez o pintor, contrariado com a incompreensão de sua arte, arrecadar junto a mecenas e apoiadores o valor que havia recebido do governo de modo a recomprá-las.
Nos anos de 1930, Jurisprudência e Filosofia foram adquiridas por August Lederer e sua mulher, Serena Pulitzer, que se tornaram os maiores colecionadores privados de Klimt. Medicina foi parar na Galeria Austríaca, conhecida hoje como Belvedere por estar localizada no palácio de mesmo nome. Durante setenta anos, o que restou das telas de grandes dimensões (4 por 3 metros) ficou restrito aos registros fotográficos e às críticas e ensaios escritos à época de suas exposições. Franz Smola, curador do Belvedere e especialista em Klimt, trabalhou com Emil Wallner, residente do Google Arts & Culture Lab, para restaurar as cores que brotaram da mente criativa e dos pincéis do artista. Smola forneceu as referências e ofereceu seu olhar de especialista. Wallner “treinou” o algoritmo de inteligência artificial com informações de oitenta telas pintadas no período pelo gênio da escola simbolista e fotografadas com uma câmera especial. Com essas informações, foi possível recuperar os prováveis matizes usados pelo pintor.
As três Pinturas das Faculdades de Klimt estavam entre as maiores obras de arte que o artista criou. Para os especialistas, representam seus trabalhos mais emblemáticos. De acordo com Smola, as diferentes e luminosas tonalidades foram centrais para o efeito avassalador que a coleção causaria quando exposta pela primeira vez. “Portanto, a reconstrução das cores é sinônimo de reconhecer o verdadeiro valor e significado dessas obras de arte notáveis”, diz o especialista. É um recomeço para telas que foram objetos de muita discussão à época de sua criação, provocativas, além de seu tempo. A tecnologia nos pega pela mão, dentro de um túnel do tempo, para manter vivíssima e memória e a arte de um pintor seminal, totem da civilização ocidental.
Publicado em VEJA de 15 de dezembro de 2021, edição nº 2768