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Para os protagonistas de ‘Gato de Botas’, dublagem é um exercício de liberdade

Salma diz que o filme, que estreia nesta sexta-feira no Brasil, lhe deu segurança para improvisar. Para Banderas, o melhor é poder recriar os personagens

Por Carlos Helí de Almeida 9 dez 2011, 12h24

“Quando minha filha viu Gato de Botas ela me disse: “Mamá, mas essa gata fala igualzinho a você.” Eu tive que explicar que eu havia colocado minha voz no desenho, mas as dúvidas continuaram: “Mas porque a Kitty Pata-Mansa não pôde usar a própria voz? O que havia de errado com ela?”. Então tive que explicar que eram apenas desenhos feitos por computador e coisa e tal, mas acho que ela sobreviveu bem à verdade”

Salma Hayek

“Senhoras e seus filhos pequenos já me pararam no supermercado para apontar para mim e dizer: “Ele é o Gato de Botas, querido!” . E o garoto olha para mim com cara de espanto e diz: “Mas esse não é o Gato de Botas, mãe, é um sujeito qualquer!”. E elas ainda pedem para eu repetir o olhar de pidão do personagem! E eu ainda me dou ao trabalho de dizer que é impossível, é apenas um personagem de desenho animado…”

Antonio Banderas

Eles se encontraram pela primeira vez em um set de cinema em meados dos anos 90, dentro de um dos segmentos de Grande Hotel (1995), e desde então não pararam de se esbarrar em Hollywood. O espanhol Antonio Banderas e a mexicana Salma Hayek voltam a dividir os créditos de um filme em Gato de Botas, desenho animado inspirado em um dos mais cativantes personagens da franquia Shrek, que chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira, em versões em 2D e 3D.

Criação do escritor e poeta francês Charles Perrault (1628-1703), o bichano da literatura ganhou características de justiceiro com alma de amante latino quando foi incorporado à série produzida pela DreamWorks. Em sua primeira aventura solo, longe dos cenários e personagens da saga do ogro verde, o Gato de Botas revela suas origens: responsabilizado por um roubo que não cometeu, ele se junta ao irmão de criação Humpty Dumpty , o menino-ovo, e sai em busca da mitológica gansa que põe ovos de ouro.

Banderas empresta a voz ao felino amarelo pela quarta vez; Salma estreia no universo dos desenhos animados dublando Kitty Pata-Mansa, a sensual gata de olhos azuis que ajudará os dois amigos a cumprir sua missão. Dirigido por Chris Miller, Gato de Botas capricha na referências aos contos de fada, no ritmo vertiginoso e nos elementos latinos. “Fazer esse filme me ajudou a entender a obsessão das crianças por desenhos animados”, disse Salma, mãe da pequena Valentina, de 4 anos, ao site da VEJA, ao lado de Banderas, durante a passagem da dupla pelo Rio, em novembro. “Faço o personagem há quase dez anos mas quem corre atrás de mim não são as crianças, e sim as mães delas”, retrucou Banderas, brincando com o seu rótulo de amante latino.

Salma, Gato de Botas é sua primeira contribuição para um desenho animado. A experiência mudou sua perspectivas sobre a animação feita para crianças?

Salma: – Sim. Tenho uma filha de 4 anos em casa, e isso quer dizer que, durante muitos anos, tive que me acostumar com a ideia de ver e rever o mesmo desenho animado infinitamente por causa dela. Era um terror, como acordar com uma música de O Rei Leão ou A Pequena Sereia na cabeça e não conseguir se livrar dela. Não sei se foi por causa de Gato de Botas ou a minha personagem no filme, mas o fato é que comecei a entender a obsessão delas por desenhos animados e como elas se conectam com esse tipo de filme. Eu me senti uma criança fazendo Gato de Botas. Adoro a Kitty Pata-Mansa, ela é linda e boba, eu sei, mas é muito querida para mim, porque a vejo de uma forma diferente.

Como sua filha reagiu quando soube que você seria a voz de um personagem de desenho animado?

Salma: – Na verdade, guardei a notícia até o último minuto, porque me senti tirando um pouco da inocência dela por revelar o tipo de trabalho que iria fazer; as crianças acreditam que esses personagens existem mesmo! Queria muito ter contado para ela logo no início, porque era um projeto que me entusiasmava bastante mas, ao mesmo tempo, fui dominada por um sentimento de culpa. Quando finalmente viu Gato de Botas ela me disse: “Mamá, mas essa gata fala igualzinho a você.” E tive que explicar que eu havia colocado minha voz no desenho, mas as dúvidas continuaram: “Mas porque a Kitty Pata-Mansa não pôde usar a própria voz? O que havia de errado com ela?”. Então tive que explicar que eram apenas desenhos feitos por computador e coisa e tal, mas acho que ela sobreviveu bem à verdade.

https://youtube.com/watch?v=PwhBvpMerDM

Que lições uma animação pode dar a um ator?

Salma: – Fazer Gato de Botas me deu mais confiança para improvisar em comédias, por exemplo.

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Banderas: – Acho que os desenhos animados te dão uma sensação de liberdade excepcional porque, diante de um microfone, gravando os diálogos do filme, você se sente livre para fazer o que quiser, porque a animação é uma trabalho posterior. A gente pode recriar nossos personagens.

Gato de Botas pode aproxima-los de um novo público, as crianças? Que tipo de relacionamento vocês têm com elas?

Salma: – Não tenho tido muito contato com crianças, ainda, porque o filme acaba de ser lançado. Mas creio que Antonio com certeza tem muitas histórias para contar, não sobre crianças, mas as mães das crianças.

Banderas: – O pior é que é verdade. Senhoras e seus filhos pequenos já me pararam no supermercado para apontar para mim e dizer: “Ele é o Gato de Botas, querido!” . E o garoto olha para mim com cara de espanto e diz: “Mas esse não é o Gato de Botas, mãe, é um sujeito qualquer!”. E elas ainda pedem para eu repetir o olhar de pidão do personagem! E eu ainda me dou ao trabalho de dizer que é impossível, é apenas um personagem de desenho animado…

O filme brinca com clichês latinos de maneira positiva. O cinema mudou?

Banderas: – Acho que nós, latinos, estamos nos levando mais a sério hoje em dia. Durante muitos anos fui rotulado como amante latino e, curiosamento, sou o ator que mais interpretou papéis homossexuais na história do cinema. Não há nada que possamos fazer contra rótulos. Desde que me mudei para os Estados Unidos, já fiz filmes sobre vampiros (Entrevista com o Vampiro), problemas sociais (Filadélfia), heróis (Zorro), e histórias infantis (Spy Kids), mas continuei sendo o amante latino. Temos que lidar com isso de uma forma positiva.

Salma: – Acho que é mais fácil rir dos clichês quando um estúdio como DreamWorks te dá um projeto com a melhor equipe técnica do mundo, como Gato de Botas. Há vários clichês sobre os latinos nesse filme mas, ao mesmo tempo, é a sua cultura que está sendo colocada em um pedestal e celebrada. Também devemos dar crédito ao fato de que o filme conta com personagens que vão contra os clichês que nos foram empurrados.

Esta é a sexta vez que vocês trabalham juntos em um projeto. Foi amizade ao primeiro filme?

Salma: – Eu e o Antonio somos amigos próximos, mas isso não quer dizer que nos vemos sempre. Dentro desta categoria, só tenho uma amiga, que não é do mundo do cinema, que conheço há 45 anos. Vejo Antonio muito raramente, geralmente com os respectivos companheiros. A gente não se fala nem no Facebook, porque não uso essas coisas. Mas ele é exatamente o mesmo em personalidade e no físico. Graças a Deus!

Banderas: – Se nossa amizade dependesse da tecnologia, ela estaria perdida. Comprei meu primeiro telefone celular há um ano. O cara que me vendeu ficou até emocionado quando eu disse que aquele era o meu primeiro celular. E só comprei porque fui fazer um filme na Tunísia (Black Gold, dirigido por Jean-Jacques Annaud) e em outras partes diferentes do mundo, e fiquei com medo de perder contato com a minha família durante o longo período de tempo em que estive fora de casa.

O que aconteceu com o filme que você queria fazer sobre o piloto Ayrton Senna, projeto pelo qual você batalhou por tantos anos?

Banderas: – Infelizmente, morreu, e definitivamente, especialmente para mim. E vou te explicar a razão de ele ter morrido. Quando vim à América do Sul filmar Evita na Argentina, antes de a produção se mudar para a Hungria, eu parei aqui no Brasil para entrevistar amigos e parentes do Senna. Cheguei a conversar com Vivianne, a irmã dele, os pais e o irmão, Leonardo. O filme ia ser dirigido por Michael Mann (diretor de filmes como O Informante e Colateral). Mas aí o diretor Renny Harlin, em associação com Sylvester Stallone, fizeram um péssimo filme chamado Alta Velocidade (Formula 1, de 2001), sobre pilotos de corrida, que foi um fracasso. A partir daí nenhum produtor quis botar um tostão em um projeto sobre pilotos de corrida. A história do Senna é muito bonita, mas agora não tenho mais idade para interpretá-lo, porque ele morreu muito jovem, aos 34 anos de idade.

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