“O piano é uma terapia para mim”
O carioca Lucas Blatt, 17 anos, cultiva desde cedo paixão pelo instrumento e brilha em palcos internacionais
Nasci no Rio de Janeiro e hoje, aos 17 anos, curso o penúltimo ano do high school em Miami. Olho para trás e percebo que a música nunca foi apenas um passatempo, é o fio condutor da minha história. Esse dom vem de família. Desde que eu e Manuela, minha irmã, éramos bebês, a música preenchia nossa casa. Meu avô paterno toca piano, a mãe dele também tocava, e a minha tataravó, Amelie Fell Henn, foi concertista na Orquestra Filarmônica de Berlim. Cresci ouvindo essas histórias, explorei o batuque, a bateria, o violão, a guitarra e até cheguei a me aventurar como DJ. Mas, aos 4 anos, quando toquei as primeiras teclas, percebi que havia algo diferente. Tive minhas fases de altos e baixos, mas o piano sempre se manteve como meu porto seguro.
A virada na minha trajetória aconteceu em 2022, quando me mudei para Miami. Foi difícil, pois, embora me sentisse privilegiado, no início não tinha muito o que fazer por lá. Foi esse ócio que me empurrou de volta para os instrumentos de forma mais intensa. Nessa época, fui apresentado a Armen Martirosyan, um professor armênio que fazia mestrado na Universidade de Miami. Até então, eu tocava mais pelo sentimento, sem me prender tanto à técnica. Ele me trouxe o foco teórico e técnico que faltava, me ajudando a ser mais expressivo. O piano deixou de ser apenas um som que eu tirava de qualquer jeito e passou a ser uma extensão do que realmente sentia.
Minha rotina mudou completamente. Eu chegava da escola, muitas vezes com a mochila ainda nas costas, e sentava ao piano por uma ou duas horas, e o tempo simplesmente voava. Nunca encarei isso como uma obrigação ou um fardo pesado. Pelo contrário, o piano é quase uma terapia para mim, é como se fosse a minha diversão do dia. Quando os pensamentos aceleram com os projetos que quero colocar em prática, sentar de frente para as teclas pretas e brancas acalma a minha mente. Tudo fica mais tranquilo, e a música flui com naturalidade.
Sempre me achei pouco competitivo, mas meu professor começou a me incentivar a participar de concursos, e a transformação foi gradual ao longo do tempo. Comecei a me expor mais, tocando em igrejas, no saguão de hospitais e até em aeroportos. Cada multidão que parava para me ouvir fazia o coração bater mais forte, mas me preparava para o que estava por vir. Os resultados vieram de modo surpreendente. Tive a honra de executar a Marcha Turca, de Mozart, e o Arabesque, de Debussy, no Carnegie Hall, em Nova York, e agora me preparo para tocar na Filarmônica de Berlim. Quando subo nesses palcos, tento não focar no nervosismo; meu único pensamento é passar para as pessoas o que acho de belo na música.
Apesar de todo esse cenário, sou muito pé no chão em relação a meu futuro. Meu gosto musical é amplo — vai de Bach e Chopin até Djavan e rock americano —, e minha visão de vida também é plural. Acho que a música vai caminhar junto com a minha carreira, mas não necessariamente como única profissão. Tenho um desejo de empreender e sou fascinado por inteligência artificial, área em que já tenho pesquisado e experimentado construir projetos reais. Planejo cursar engenharia, talvez em Boston, porque acredito que essa área une perfeitamente o pensamento lógico com a criatividade que a arte me ensinou.
Muitas pessoas me perguntam se a IA pode substituir a arte. Quanto mais estudo sobre isso, mais entendo que a tecnologia automatiza trabalhos, mas jamais substituirá a essência humana. O humano está vinculado emocionalmente à peça que está tocando. Uma máquina pode até ter técnica perfeita, mas falta coração. Por isso, independentemente de meu destino, o piano será uma atividade permanente em minha vida. Ele sempre será meu refúgio e a certeza de que a arte continuará caminhando a meu lado.
Lucas Blatt em depoimento a Alessandro Giannini
Publicado em VEJA de 3 de abril de 2026, edição nº 2989





