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A morte de Robert Frank

Por trás do celebrado sonho americano do pós-guerra, o fotógrafo iluminou as injustiças, as diferenças sociais, a solidão

Por Redação VEJA Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 13 set 2019, 06h30 • Atualizado em 4 jun 2024, 15h48
  • Ao modo de Alexis de Tocqueville (1805-1859), historiador e viajante francês celebrizado por seus escritos sobre a democracia nos Estados Unidos, o fotógrafo Robert Frank, nascido na Suíça, captou a realidade americana como um antropólogo vindo de fora, sempre colado a uma câmera Leica com estojo de couro, a bordo de um Ford Coupe — e esse seu olhar virou um dos grandes marcos da fotografia no século XX. Em 1955, aos 31 anos, Frank ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Guggenheim e se pôs a percorrer trinta estados, em nove meses de jornada, ao longo de mais de 16 000 quilômetros. Queimou 767 rolos de negativo, fez 27 000 fotos. Um pequeno recorte desse montante, exatos 83 registros, foi lançado como livro em 1958 — Os Americanos, obra que mudaria a cara de seu ofício ao captar a vida sem polir suas arestas e incômodos, valendo-se do improviso e do cultivo de certa imperfeição técnica. Era o que se chamaria, a partir dali, de “fotografia de rua”, mais crua e menos lírica que a do francês Henri Cartier-­Bresson (1908-2004). Para Frank, uma inspiração permanente eram as telas melancólicas de Edward Hopper (1882-1967), antes mesmo de o pintor realista ficar famoso.

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    INSPIRAÇÃO - Frank: ele dizia beber das telas tristes de Edward Hopper (Everybodyfilm/Instagram)

    No prefácio da primeira edição de Os Americanos, Jack Kerouac (1922-1969), o beatnik autor de Pé na Estrada, escreveria o seguinte: “Depois de ver essas fotos, você acaba não sabendo se uma jukebox é mais triste que um caixão”. Por trás do celebrado sonho americano do pós-guerra, Frank iluminou as injustiças, as diferenças sociais, a solidão. Nenhuma foto é mais emblemática que a de um ônibus e seus passageiros (veja acima) — a fugacidade transformada em comentário ensurdecedor sobre a segregação racial nos Estados Unidos dos anos 1950. Nos bancos da frente estão um homem, uma senhora com ar superior e duas crianças brancas; atrás deles, como rezava a cartilha da discriminação, viajam um homem e uma mulher negros. Frank morreu no dia 9, aos 94 anos, em Inverness, no Canadá, de causas não reveladas pela família.

    Publicado em VEJA de 18 de setembro de 2019, edição nº 2652

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