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McConaughey, Lupita, Leto e os segredos de um bom discurso

Agradecimentos dos atores após levarem estatuetas no Oscar dividiram opiniões e levantaram questões sobre o que torna um discurso claro e efetivo

Por Meire Kusumoto - 8 mar 2014, 19h19

Como em todo ano, a revelação dos ganhadores do Oscar 2014 não foi o único atrativo para fazer o público assistir à transmissão do prêmio. Ver a emoção dos vencedores também é parte do show. O discurso de Matthew McConaughey, laureado com a estatueta de melhor ator por Clube de Compras Dallas, causou estranhamento a quem assistia à premiação. Reproduzido mais tarde na internet, no entanto, foi elogiado pelo público, que chegou a criticar quem dizia que a fala de McConaughey havia sido confusa, como o site de VEJA. Mais diretos, outros discursos, como o de Lupita Nyong’o, vencedora da estatueta de melhor atriz coadjuvante por 12 Anos de Escravidão, e Jared Leto, escolhido melhor ator coadjuvante também por Clube de Compras Dallas, foram considerados efetivos tanto enquanto eram proferidos quanto mais tarde, quando analisados. As falas de Lupita e Leto não comoveram à toa: eles adotaram estratégias de comunicação sabidamente eficazes.

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Um roteiro para entender o discurso de McConaughey. Ou pelo menos tentar…

Segundo Marcos Martinho, professor de Letras Clássicas da Universidade de São Paulo (USP), os bons discursos têm uma dimensão racional, uma dimensão ética e uma terceira, emocional.

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A primeira tem a ver tanto com o conteúdo quanto com a estrutura da fala. Assim, discursos que começam com uma história ou partem de exemplos concretos costumam funcionar. “Mencionar pessoas ou fatos de conhecimento geral facilita o trabalho do ouvinte, cria um atalho para que se compreenda o raciocínio do orador”, diz Martinho. McConaughey escolheu um caminho bem mais arriscado. Depois de um breve agradecimento à Academia, ele anunciou que falaria das três coisas de que precisa para viver. Ou seja, faria uma análise detalhada de como funcionam a sua cabeça e o seu coração. Começou aí o incômodo de muitos espectadores. Martinho lembra que numa situação como o Oscar os os vencedores têm apenas alguns minutos para dar o recado. “Já se sabe que não há tempo para desenvolver um raciocínio rebuscado demais”, diz ele. No fim das contas, o recado de McConaughay não era mesmo tão complicado – ele queria agradecer a Deus, à sua família, e dizer que a busca do aperfeiçoamento é um processo sem fim. Mas escolheu uma maneira tortuosa de passar o recado. Mais que confuso, de fato, seu discurso poderia ser descrito como pretensioso.

E esse é outro problema, segundo Marinho. A atitude de quem está no palco, diz o professor, também influencia o entendimento e a reação do público. Na cerimônia de entrega do Oscar, Lupita mostrou estar emocionada durante todo o discurso, um elemento que contribuiu para que conquistasse a empatia do público. Leto estava mais comedido, sério, enquanto McConaughey, embora falasse de coisas como religião e família, tinha um ar quase malicioso. “Um orador deve sempre dizer alguma frase que revele o que ele pensa das coisas fundamentais da vida, que deixem claro seu traço humano”, afirma Martinho. Mas é preciso que a forma e conteúdo coincidam.

Discursos fortes também costumam deixar clara uma postura ética. Esse elemento foi marcante nos discursos de Lupita e Leto, que mencionaram o sofrimento de seus personagens e conquistaram a identificação do público.

Lupita começou seu agradecimento deixando claro que, apesar da felicidade que sentia pelo reconhecimento, não esquecia a dor sentida por pessoas como Patsey e Solomon, personagens do filme baseados em histórias reais de escravos na década de 1840 nos Estados Unidos. Leto, por sua vez, encerrou seu discurso com a dedicação do prêmio a “36 milhões de pessoas que perderam a batalha contra a aids”, como seu personagem em Clube de Compras Dallas, Rayon. Colega de elenco de Leto, McConaughey, que também vivia uma pessoa sofrendo de aids no filme, não mencionou seu personagem ou o enredo do longa.

Para Martinho, a menção a histórias comoventes faz com que os espectadores lembrem situações pelas quais eles mesmos passaram ou que observaram de perto. Além disso, os atores demonstram que deixaram se envolver verdadeiramente pelos personagens, que o cinema tem algo de real.

Outro ponto de contato entre os discursos de Lupita e Leto foi a menção à realização de sonhos. Leto dedicou o prêmio aos “sonhadores de todo o mundo assistindo à premiação, em lugares como a Ucrânia e a Venezuela”. Lupita afirmou que a estatueta a fazia pensar em si mesma e em todas as crianças, que podiam, enfim, como ela, acreditar que seus sonhos eram válidos.

Segundo Martinho, a emoção transmitida por atores numa premiação – e por qualquer orador experiente – sempre tem algo de programado. “O ganhador não chega ao palco e simplesmente fala o que o coração manda. Pensando em toda a indústria da qual o Oscar faz parte, não há espaço para um verdadeiro improviso.” Mas mesmo esses mestres da arte da comunicação em público não estão livres das derrapagens. Os erros mais comuns que um orador pode cometer, diz o professor, são três. Primeiro, desenvolver uma ideia complexa ou rebuscada demais. Apresentar um traço desagradável de sua personalidade, obviamente, vai fazer com que os espectadores percam a simpatia por quem está no púlpito. Por último, ao tentar criar um vínculo emocional com quem está na plateia, a pessoa que profere o discurso sempre corre o risco de falhar e de não produzir emoção alguma.

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