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Fernanda Montenegro: “Vivemos uma tragédia”

A mais premiada atriz brasileira faz setenta anos de carreira e diz estar sem esperanças diante da crise política e das descobertas feitas pela Lava-Jato

Por Ullisses Campbell
29 abr 2017, 08h00 • Atualizado em 1 Maio 2017, 16h15
  • Fernanda Montenegro não havia completado 50 anos quando, em 1976, nas páginas de VEJA, refletiu sobre a longevidade de sua carreira. “Quando a gente chega à casa dos 40 anos, deixa de ser novidade”, ponderava a atriz. Aos 87 anos, Fernanda é a memória das artes cênicas no país. Seus filmes, novelas e espetáculos teatrais já lhe renderam mais de uma centena de prêmios e a única indicação de uma atriz brasileira ao Oscar. Lavrar o inventário de sua obra implica, portanto, confrontar o que de melhor foi produzido nos palcos e telas do Brasil. Mas Fernanda diz não valer­-se de troféus para medir seu grau de satisfação. “Nunca almejei esses títulos. Aceitei minha vocação como um bicho impetuoso”, fala a VEJA.

    Se Fernanda se resignou ao ímpeto de seu talento, o mesmo não se pode dizer sobre o momento atual. Em raro desabafo, a atriz afirma estar decepcionada com o PT e incrédula com os que ocuparam seu lugar. “Esses corruptos invadiram Brasília feito ETs e dominaram o país. Sempre votei no Lula, mas minha decepção começou há tempos, em 2012, quando ele visitou Paulo Maluf para pedir apoio à candidatura de Fernando Haddad à prefeitura de São Paulo, bem antes da Lava-Jato. Ali, a máscara caiu, e ele virou um anti-herói”, diz. Sobre a hipótese de Lula ser preso, diz a atriz: “O momento é tão surpreendente que não sabemos o que vai acontecer amanhã. Brasília continua como se nada estivesse acontecendo. A equipe do Temer está toda envolvida com corrupção. Mas, quando gritam ‘Fora, Temer’, não temos quem colocar no lugar. A Lava-Jato nos mostrou que todas as tendências partidárias e correntes ideológicas estão unidas no crime. A propina conseguiu algo incrível: unir esquerda e direita.” Fernanda diz que não vê esperança neste governo. “E o pior é que nem começamos a passar as coisas a limpo. Ainda estamos na fase de pôr as cartas na mesa. Muitas descobertas virão à tona. Vivemos uma tragédia.”E explica por que entoou o coro “Fora, Temer” no Festival de Teatro de Curitiba: “Acho que o Temer tinha de ter saído junto com a Dilma, já que era uma chapa só. Eles foram cúmplices, coniventes, aderentes.”

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