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A opinião contundente de um autor celebrado sobre futuro da língua portuguesa

Em entrevista a VEJA, angolano José Eduardo Agualusa fala das ligações do país africano com o Brasil e rechaça um temor muito difundido sobre a lusofonia

Por Diego Braga Norte Atualizado em 19 nov 2024, 10h24 - Publicado em 19 nov 2024, 10h21

O angolano José Eduardo Agualusa, 63 anos, já perdeu as contas de quantas vezes veio ao Brasil. Sua ligação com o país é sanguínea: ele tem familiares em Cabo Frio e tios que nasceram no Rio de Janeiro. Nesta oportunidade, viajando ao lado do amigo moçambicano e também escritor Mia Couto, vai cumprir uma agenda intensa de quatro feiras literárias, palestras e eventos para autografar seus livros. Entre o último dia 5 até 28 de novembro, iria visitar Maricá (RJ), Tiradentes (MG), São Paulo (SP), Santos (SP), Uauá (BA), Salvador (BA), São Luís (MA) e João Pessoa (PB), antes de retornar a seu lar. Seu mais recente livro, Mestre dos Batuques, traz elementos recorrentes em suas obras: a ótima mistura de história real com ficção, além de toques de fantasia. O livro conta uma história de amor durante um conflito ocorrido em Angola no início do século XX. De um lado, o Reino do Bailundo e seus aliados; do outro, o então Reino de Portugal, nação que dominava o país da costa atlântica da África. Mas a guerra é só o pretexto para Agualusa discutir temas mais candentes, como identidade e pertencimento. Em entrevista a VEJA, Agualusa falou sobre sua nova obra, a íntima ligação de Angola com o Brasil, a presença cotidiana da magia e do absurdo no país africano e também sobre o idioma que nos une, o português. “Já ouvi falarem sobre a possibilidade de o português tornar-se bem diferente em cada país. Eu acho que isso é um erro enorme. Há uma unificação da língua, não uma separação”, disse ele. Confira a conversa completa abaixo:

 

Assim como muitos dos seus livros, Mestre dos Batuques mistura fatos reais e personagens históricos com fantasia. Como é esse processo de brincar com realidade e ficção? Bem, eu tenho já dois ou três romances históricos mais clássicos. Por exemplo, A Rainha Ginga, que é sobre uma grande figura da história da humanidade, não apenas da África. Esse livro mais recente faz uma coisa bastante diferente, porque eu acompanho a história de Angola, concretamente a história do Reino do Bailundo, até certo ponto e depois vou-me distanciando dela. Então, o que acontece ali é uma realidade paralela, já não é a história como nós a conhecemos, é a história de um outro universo, não é o nosso. É um falso romance histórico.

 

No livro, o Reino do Bailundo derrota Portugal. Nesse sentido, sendo um falso romance histórico, ele se aproxima mais de uma utopia? Não é bem uma utopia, está mais perto de uma distopia. No fundo, o que eu tento mostrar, de uma forma um pouquinho exacerbada, é que a colonização de Angola é muito complexa. É muito mais complexa do que aquilo que se aprende nos livros de história, e também muito mais interessante.

 

Pode explicar essa complexidade? No caso de Angola, a presença colonial restringiu-se durante séculos às cidades do litoral. Quando se diz que os portugueses estiveram 500 anos em Angola, não é verdade. Só é verdade para as cidades do litoral. A capital Luanda é uma cidade muito antiga, mais velha do que qualquer cidade americana, por exemplo. É uma cidade onde a presença portuguesa se prolongou por séculos, acabou inclusive gerando uma cultura mestiça afroeuropeia. Não foi assim no planalto central do país. Até o século XX, os portugueses que queriam estabelecer-se nas terras do Reino do Bailundo, tinham de pedir autorização do rei, tinham que pagar tributos ao rei. O rei do Bailundo tinha domínio sobre os portugueses.

 

E essa autonomia se encerrou com o conflito? Sim, Bailundo só perde a independência no início do século XX, com guerra encerrada em 1904. Portanto, as populações de lá tiveram muito pouco tempo sob domínio português. Só 70 anos, a independência de Angola aconteceu em 1975. Evidentemente, estas populações do planalto central têm outra relação com a história, com o passado colonial e com o Portugal dos nossos dias. Têm outra cultura também, muito diversa da que temos hoje em Luanda.

 

Em seu livro também tem uma passagem bem marcante e inusitada sobre os brancos escravizados comprados e libertados por um comerciante negro. Pode falar um pouco sobre essa históra? Sim, é outro personagem baseado numa pessoa real, que é esse comerciante negro, rico. Esta história é absolutamente verdadeira, está bem documentada. Quando começa a guerra, o rei do Bailundo avança sobre os comerciantes portugueses e sobre alguns militares, arrasa tudo e faz aquilo que era tradição na sua cultura, escraviza os sobreviventes. Ele leva os sobreviventes portugueses e junta-os aos seus escravos. Os portugueses de Luanda, capital colonial, não quiseram libertá-los. Tinham medo, disseram: ‘isso não é conosco, é problema deles’. E foi o comerciante angolano negro que vai lá libertar os portugueses com o seu próprio dinheiro.

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O novo romance e praticamente toda sua obra têm elementos muito próximos do realismo mágico latino-americano. Esse movimento o influenciou? Eu acho que é algo muito africano. Aquilo que hoje chamamos de realismo mágico já estava em Angola, é sempre bom realçar isto. Quando se trata da literatura africana é, na verdade, realismo africano. Nossa realidade tem muitos elementos fantásticos. E também a ausência do Estado possibilita, muitas vezes, o surgimento de situações absurdas. Muitas vezes nem é tanto o realismo mágico, é mais o absurdo que se insere no tecido social. Para mim é sempre impressionante ver a facilidade com que as pessoas se habituam ao absurdo.

 

Nesta e em várias outras obras suas têm muitas referências ao Brasil. Você cita neste último livro Machado de Assis, Rio de Janeiro, o próprio pai da protagonista tinha vivido um tempo por aqui. Com vê a relação de Angola com o Brasil? A ligação da Angola com o Brasil foi muito intensa até o final do século XIX. Há historiadores que defendem que era uma ligação direta, não passava por Portugal. E é verdade em muitos aspectos. Por exemplo, até muito tarde do século XIX, os padres angolanos estudavam em Pernambuco. Nós tivemos em Angola muitos governadores brasileiros. Quem foi libertar Angola do domínio holandês foi uma armada que saiu de Rio de Janeiro e que incluía tropas negras e indígenas. A ligação era muito intensa, e mais profunda do que a maioria das pessoas imagina. Temos em Angola cidades que foram fundadas por brasileiros. A cidade de Sambos, no extremo sul de Angola, foi fundada por brasileiros. Esses ex-escravizados negros deram origem a uma etnia específica que existe até hoje no sul de Angola e que incorpora elementos brasileiros e até algumas palavras de origem tupi.

 

E como são suas ligações pessoais com o Brasil? No meu caso particular, eu tenho família brasileira de ambos os lados. Do lado da mãe, os Agualusas, a maioria deles, são brasileiros. Eles vivem em Cabo Frio [cidade no litoral do Rio de Janeiro]. Do lado do meu pai, meu avô era carioca. Os meus tios mais velhos, irmãos mais velhos do meu pai, eram cariocas. Eles mudaram-se para Angola e depois voltaram para o Brasil, morreram no Rio de Janeiro.

 

A língua portuguesa, que nos une enquanto países lusófonos, tem seus regionalismos, seus sotaques, seus vocábulos próprios em cada país e em cada região em que ela é falada. Mas, por outro lado, hoje temos maior circulação de livros, filmes, músicas e pessoas, mais contato entre os países lusófonos. Como você vê o futuro da língua portuguesa? Já ouvi falarem sobre a possibilidade de o português tornar-se bem diferente em cada país. Eu acho que isso é um erro enorme. Esta ideia de que estas diferentes variedades da língua portuguesa vão acabar por se autonomizar e um dia os brasileiros falarão brasileiro e os angolanos falarão angolano e por aí fora. Isto só acontece em situações de isolamento. Estamos a viver o processo contrário, um grande reconhecimento mútuo. Há um trânsito enorme de pessoas e de ideias através das novas tecnologias. Os portugueses conhecem cada vez melhor as diferentes variedades do português que se fala no Brasil. Os brasileiros também conhecem cada vez melhor o português de Portugal. Há um maior reconhecimento. Nesse sentido, há uma unificação da língua, não uma separação. Em Angola, por exemplo, e mesmo em Portugal, com as telenovelas, com a música, adotamos algumas palavras do português do Brasil. O português de Portugal vem adotando um grande número de palavras do português de Angola, e assim por diante.

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Não corremos o risco então de ver acontecer com o português o mesmo que ocorreu com o inglês, que hoje é fortemente influenciado pela maior potência que fala a língua, os Estados Unidos? Não, a lusofonia é um processo muito mais igualitário porque Portugal não tem poder para dominar os outros países. Se alguém tivesse poder, seria o Brasil. O Brasil hoje é uma grande potência e se houvesse um núcleo da lusofonia, um motor, seria o Brasil, não Portugal.

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