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A lenda urbana dos testes

É ilusão achar que há prova para quem sonha em brilhar na TV

Por Walcyr Carrasco
12 jul 2019, 06h30 • Atualizado em 4 jun 2024, 15h35
  • Tenho receio até de ir a festa infantil. Estou num canto, com o prato cheio de coxinhas e empadinhas. Aproxima-se uma mãe sorridente. Ou pai. Quer me apresentar uma criança-­prodígio. Filho, parente, vizinho. Que canta, dança e que eu deveria lançar em novela. Quase todos os dias, perco algum amigo ou conhecido. Estamos trocando mensagens pelo celular. De repente, vem uma foto. Pode ser de uma menina maquiada como adulta. Ou de uma garota loira, cabelos ao vento na praia. Rapazes também, em geral na academia. E um pedido: “Avise quando houver testes!”. Se dou uma resposta evasiva, recebo uma mensagem magoada. Há o que chamo de a sina dos olhos verdes (valem também os azuis). A pobre criança passa a vida ouvindo de mães, pais, avós que com aqueles olhos deverá fazer sucesso na TV. A pessoinha, no íntimo, até gostaria de estudar engenharia. Sente-se obrigada a ser famosa — afinal, não nasceu com aqueles olhos? Há também a pessoa que realmente estudou, faz teatro. Gosta de subir aos palcos. Segue com a vida. Tudo seria ótimo se não fossem os pais e mães, avós… Só acham que alguém é ator quando faz TV. Vem a cobrança: se é ator, por que não faz novela? Atordoada, a criatura, em vez de valorizar o que faz, resolve brilhar na televisão.

    Todas essas expectativas caem em cima de gente como eu. Se alguém quer ser médico, sabe que tem de fazer faculdade. Dentista, advogado etc., também. Para se tornar ator, creem, basta nascer. Os atores profissionais sabem que o caminho é mais árduo. É preciso um curso, tirar registro profissional (crianças são exceção). Sindicatos podem dar o registro com base em trabalhos já realizados e um exame de interpretação. Muitos candidatos não querem estudar. Acreditam que vão arrebentar se forem vistos. E criou-se um grande mito: o teste.

    “Para se tornar ator, creem, basta nascer. Os atores profissionais sabem que o caminho é mais árduo”

    A maioria das pessoas me pergunta quando a emissora fará testes. Elas acham que há espaço para a inscrição generalizada. E se houvesse? As filas demorariam semanas! Respondo que não há testes, pelo menos indiscriminadamente. Testes existem em função de um papel específico. De acordo com um perfil de idade, tipo físico. Testes infantis seguem o mesmo protocolo. Definido o papel, vem a primeira seleção. Prioritariamente realizada por produtores de elenco entre quem já atua na TV, no teatro, em filmes. Selecionam-se atores e atrizes com base nas características de um personagem. No dia a dia, as emissoras fazem também o cadastro de atores no mercado. Só para quem tem registro profissional. Com vídeos e ficha técnica. Basta teclar para descobrir, por exemplo, atores acima de 40 anos que andam a cavalo. Atores profissionais sabem como se cadastrar. Quando explico tudo isso, quem está diante de mim faz cara de paisagem. E conclui:

    — Entendi. Mas quando houver testes você me avisa?

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    Testes são uma lenda urbana. Fortíssima num país onde tanta gente sonha em ser famosa. Adianta dizer que não funciona desse jeito? Passo por antipático.

    Publicado em VEJA de 17 de julho de 2019, edição nº 2643

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