Assine VEJA por R$2,00/semana
Continua após publicidade

Viagem às origens: o ‘turismo regenerativo’ está em alta

Em voga no Brasil e no mundo, tendência propõe experiências positivas, ao proteger o ambiente e beneficiar as comunidades locais

Por Marília Monitchele Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
23 jul 2023, 08h00

A expressão “turismo regenerativo” está em circulação há algum tempo, mas foi só a partir de 2017 que ganhou contornos mais definidos. Naquele ano, o Conselho Global de Turismo Sustentável (GSTC), organização não governamental ligada às Nações Unidas para promover a responsabilidade social no setor, lançou os princípios básicos para condução de negócios e manutenção de destinos selecionados. Transformado em tendência, o conceito prega a criação de experiências positivas para os viajantes e, simultaneamente — eis o pulo do gato —, a proteção ao ambiente e às comunidades originais. No Brasil e no mundo ganhou agora imensa tração. Tem sido adotado em locais como o arquipélago de Fernando de Noronha, Santo André e Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, e também no Panamá, na Costa Rica e no Zimbábue.

É, a rigor, uma volta às origens. O turismo regenerativo, na verdade, questiona o papel das excursões tradicionais, desregradas. Consequência da globalização, a esperada padronização tomou conta dos serviços hoteleiros e até dos cardápios, adaptando pratos típicos para paladares supostamente universais. É ir, ver, aproveitar, fazer sujeira e vir embora, sem nenhum zelo. A crescente conscientização dos impactos ambientais causados pelo setor, a demanda por experiências autênticas e o papel das redes sociais no compartilhamento desses momentos, porém, têm forçado uma correção de rumo da indústria hedonista. “A ideia é recuperar os recursos naturais, fortalecer as comunidades e melhorar a qualidade de vida dos habitantes”, diz Milene Moreira, consultora de turismo especialista no tema.

VICTORIA FALLS, ZIMBÁBUE - O Parque Nacional Mosi-oa-Tunya, na fronteira com a Zâmbia, é uma das maiores quedas-d'água do mundo. Os viajantes passeiam e, simultaneamente, entendem o zelo com a fauna, composta de animais como elefantes e búfalos
VICTORIA FALLS, ZIMBÁBUE – O Parque Nacional Mosi-oa-Tunya, na fronteira com a Zâmbia, é uma das maiores quedas-d’água do mundo. Os viajantes passeiam e, simultaneamente, entendem o zelo com a fauna, composta de animais como elefantes e búfalos (Edwin Remsberg/VW PICS/UIG/Getty Images)

Tudo isso pode ser alcançado por meio de práticas como a conservação e a recuperação de ecossistemas, a promoção da cultura local e o apoio ao empreendedorismo regional. A ideia é transformar os visitantes em agentes ativos, capazes de deixar um impacto positivo, e não apenas financeiro, nos destinos visitados. “Todos os locais de visitação têm um número máximo de pessoas que pode suportar e isso precisa ser respeitado”, afirma Thais Guimarães, executiva da Conservation International Brasil, organização de defesa da biodiversidade. “Em vários lugares, como Barcelona e Veneza, o morador rejeita o turista porque não suporta mais. É preciso repensar o modelo.”

A indústria do turismo é responsável por 8% das emissões de gases de efeito estufa no mundo. Daí a relevância de adotar novas práticas, sempre atentas à preservação da herança biocultural dos destinos. Um exemplo é o Panamá, que assumiu a dianteira dessa tendência com foco em desenvolvimento comunitário, tornando-se um dos destinos favoritos de quem busca experiências de viagens ecológicas. “O país está mostrando que o turismo é realmente um catalisador econômico que pode ser utilizado para proteger as comunidades naturais, culturais e locais”, diz Woodrow Oldford, diretor de marketing da Promtur, órgão de promoção de turismo no país.

Continua após a publicidade
ILHA GRANDE, PANAMÁ - Colón, uma das províncias do Caribe panamenho, tem habitações de cores vibrantes, praias de águas cristalinas, cultura ancestral e uma gastronomia requintada. Os visitantes participam do cotidiano comezinho do lugar
ILHA GRANDE, PANAMÁ – Colón, uma das províncias do Caribe panamenho, tem habitações de cores vibrantes, praias de águas cristalinas, cultura ancestral e uma gastronomia requintada. Os visitantes participam do cotidiano comezinho do lugar (Promtur/Divulgação)

O Brasil ocupa a 54ª posição entre os países no mundo que mais investem em práticas sustentáveis no turismo, segundo a Sustainable Travel Index, da Euromonitor. Na esteira dessa tendência, a Aliança Futuri, união entre empresas, comunidades de destinos turísticos e governos estaduais, atua no sul da Bahia, em destinos como Porto Seguro, Santa Cruz Cabrália e Caraíva. O projeto busca incentivar cadeias turísticas sustentáveis e auxiliar na transição de modos tradicionais de turismo para atividades regenerativas. Trata-se, por exemplo, de convivência saudável, no contato e também no comércio, com as comunidades dos quilombos, terras indígenas e vilas de pescadores.

Dentro das práticas de turismo regenerativo, a ideia é colocar o turista como um convidado muito bem-vindo, livre para aproveitar todos os atrativos e belezas dos destinos, e não como depredador. Nessa condição, no entanto, deve saber que precisa respeitar a cultura e os valores do anfitrião e deixar a casa limpa, arrumada e melhorada para os próximos que virão. Só assim a experiência pode ser verdadeiramente completa e transformadora. Para ele, e para o mundo.

Publicado em VEJA de 26 de julho de 2023, edição nº 2851

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

O Brasil está mudando. O tempo todo.

Acompanhe por VEJA.

MELHOR
OFERTA

Digital Completo
Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 2,00/semana*

ou

Impressa + Digital
Impressa + Digital

Receba Veja impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*

a partir de R$ 39,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$96, equivalente a R$2 por semana.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.