Vêm aí os “Ozempets”
Laboratórios criaram drogas como Ozempic e Mounjaro. Com os bichos acima do peso, a mesma estratégia começa a ser testada em cães e gatos
A obesidade não virou um dos maiores desafios apenas para a medicina humana. Já bate à porta das clínicas veterinárias. Estima-se que entre 40% e 50% dos cães estejam com excesso de peso hoje. Entre os gatos, a situação é ainda mais preocupante: seis em cada dez estão obesos. E há quem diga que até roedores, pássaros e répteis de estimação estão engordando. O problema, tal qual para nossa espécie, é que não se trata de mera fofura: o acúmulo de gordura coloca a saúde dos bichos em risco. A ciência já viu esse filme e agora está de olho na mesma tática que tem mudado o tratamento da obesidade humana. Será que os medicamentos análogos de GLP-1 — família à qual pertencem as canetas de Ozempic e Mounjaro — poderiam oferecer os mesmos efeitos para os animais de companhia?
A era dos “ozempets” parece estar no horizonte, mas há muito chão até se consolidar nos consultórios veterinários. Apesar de depoimentos aventureiros em redes sociais, não se trata de simplesmente pegar o remédio desenvolvido para gente como a gente e aplicar em cães e gatos. “Não existe possibilidade de extrapolação direta a partir dos dados de estudos com humanos”, afirma a veterinária Sofia Borin Crivellenti, pesquisadora da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Em outras palavras, é preciso realizar pesquisas em âmbito veterinário para definir formulação, dose e protocolo de uso em animais.
Mas esse movimento já começou — e os gatos saíram na frente. Nos Estados Unidos, a farmacêutica Okava anunciou um estudo-piloto com microimplantes de exenatida — uma molécula de primeira geração da classe, que não está disponível no Brasil — para felinos obesos. Diferentemente das injeções em humanos, os bichanos recebem uma espécie de “chip” sob a pele, capaz de liberar a medicação de forma prolongada por até seis meses. A ideia é promissora e os resultados são esperados ainda para este ano.
Apesar dos holofotes recentes, essa linha de investigação tem estrada. Crivellenti estuda os análogos de GLP-1 na clínica veterinária desde 2013, quando realizou um doutorado nos EUA sob orientação do pesquisador que hoje lidera os ensaios com o microimplante da Okava. Na época, o foco não era a obesidade, mas o diabetes tipo 2 felino — condição parecida com a versão humana, que pode ser tratada com Ozempic. Os experimentos com moléculas como a exenatida e a liraglutida — remédio que, para pessoas, é de aplicação diária — envolveram gatos submetidos às menores doses disponíveis para humanos. Os resultados mostraram redução do apetite, aumento da saciedade, melhora do controle glicêmico e perda média de 9% do peso em duas semanas.
Mas um revés logo surgiu. Em alguns bichanos, especialmente nos testes com a liraglutida, a diminuição da ingestão alimentar foi tão intensa que levou a episódios de anorexia por vários dias. Não é um mero detalhe: diferentemente dos cães, os felinos toleram mal períodos prolongados sem comer e podem desenvolver problemas em função disso. “Naquele momento, a conclusão foi que mesmo a menor dose usada em humanos não é segura para os gatos — uma lição importante”, afirma Crivellenti. Por outro lado, a exenatida teve um desempenho mais equilibrado e menos efeitos colaterais — o que justifica a nova tentativa por meio de implantes.
Agora, os estudos conduzidos pela UFU seguem em colaboração com a Universidade da Flórida, nos EUA, sob confidencialidade. Os gatos continuam como protagonistas, embora os cães também tenham entrado no radar. Crivellenti destaca que muitos estudos iniciais desses fármacos, na medicina humana, foram feitos em cães, indicando boa resposta fisiológica. Na visão do veterinário Thiago Vendramini, professor da USP que prepara uma revisão sobre o que se sabe a respeito dos análogos de GLP-1 na saúde animal, há motivos para entusiasmo desde que eles venham acompanhados de cautela. “Os animais de companhia não decidem que petisco comprar nem o que vão comer. Quem define a dieta e a ingestão calórica é o tutor”, afirma.
Para ele e outros especialistas, esses remédios poderão ser coadjuvantes nos casos em que ajustes na alimentação e a rotina de exercícios são insuficientes. “Quando o animal está acima do peso, muitas vezes o problema está em falhas de manejo”, diz Vendramini. O Conselho Federal de Medicina Veterinária, aliás, reforça que qualquer avanço na área deve respeitar ciência e ética. Por ora, os bichos devem ficar longe das canetas. E, quando despontar o mundo dos “ozempets”, ele não vai eximir donos, cães, gatos e papagaios das medidas clássicas para emagrecer.
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977
O número que pode azedar o sonho eleitoral de Lula em 2026
Após Trump ameaçar invasão, Sheinbaum rebate e pede ‘coordenação’ México-EUA
Risco de interferência de Trump no Brasil existe, mas não da maneira óbvia, diz especialista
O desabafo de Lewandowski a um aliado ao sair do governo Lula
Incertezas sobre Flávio Bolsonaro crescem, e parte da direita já busca alternativas







