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“Fui algemado e achei que iria morrer”

O advogado Dennis van Wanrooij, 40 anos, fala do pesadelo de ser preso no Catar por “trejeitos femininos”

Por Duda Monteiro de Barros Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 7 fev 2026, 08h00 •
  • Nunca me passou pela cabeça que os três dias que decidi passar no Catar virariam um pesadelo. Foi no meio de uma viagem a trabalho para o Nepal, em que a conexão seria na capital Doha. Já visitei muitos países muçulmanos e tive boas experiências com povos acolhedores. Como bissexual e advogado com atuação em prol dos direitos LGBTQIA+, sei que não é desejável expor minha orientação sexual em certos lugares. No Zimbábue e no Irã, onde inclusive trabalhei, por exemplo, sabia que o mais recomendado era parecer hétero, usando roupas mais masculinas. Claro que isso é uma manifestação de preconceito, mas jamais tinha vivido algo como agora, nesta ida ao Catar, em que me prenderam do nada, no meio da rua, sem qualquer explicação — um atropelo às noções mais básicas de civilidade e uma mostra da intolerância que ainda resiste no século XXI.

    Escolhi um hotel conhecido, cinco estrelas, em região segura. Eu e meu marido, Ivens, fizemos apenas passeios em zonas turísticas, fomos ao deserto e caminhamos pelas ruas do centro. Até que, depois de jantar, resolvi comprar um sorvete em uma praça bastante movimentada, e ele saiu à procura de um café. Quando estava indo a seu encontro, um homem me mostrou um crachá e falou alguma coisa em árabe que não entendi. Tentei ignorar, mas logo surgiu mais um, se identificando como policial e dizendo, em inglês, que eu seria preso. Só deu tempo mesmo de mandar uma mensagem para meu marido avisando o que estava acontecendo e compartilhando minha localização. De repente, havia oito caras à minha volta. Cheguei à delegacia, que ficava a poucos metros, e confiscaram meu celular e passaporte. Aí o Ivens veio atrás de mim, em busca de informações, e acabou detido.

    Fomos conduzidos a uma sala e começou um interrogatório sem fim. Uma agente afirmou sem meias-palavras: “Você é muito feminino”. Perguntavam se eu era homem ou mulher, desqualificavam minhas roupas, minha sexualidade. E mais: queriam saber se eu tinha me relacionado com algum cidadão do Catar. Pediram a senha do meu celular e vasculharam tudo, inclusive as redes. Depois de três horas, decidiram liberar meu marido, mas eu continuei lá. Deixei a delegacia algemado. Não informaram para onde eu estava indo e entrei em um carro preto. Aí desabei e comecei a chorar. Era uma mistura de ódio, raiva e medo, muito medo. Como as regras iam sendo criadas conforme as circunstâncias, achei que poderia morrer. Após quarenta minutos, chegamos a uma nova prisão. Ali, um dos policiais, para minha surpresa, se solidarizou com a situação e foi direto ao ponto: recomendou que parasse de chorar e pedisse desculpas para ser liberado. Foi o que fiz: pedi perdão para autoridades que usaram de poder para me humilhar.

    Fui colocado em uma sala com mais presos, todos da comunidade LGBTQIA+. Conheci uma mulher trans britânica, que havia se mudado para Doha e me contou que as prisões de pessoas homossexuais são recorrentes por lá. A toda hora os policiais vinham nos xingar. Esse é o método: fazer a pessoa se sentir diminuída, uma tática comum de ditaduras. Aos poucos, você vai enlouquecendo. Passaram-se dezesseis horas e, do mesmo modo que me encarceraram, decidiram que eu podia ir embora. Deixaram claro que condenavam meu modo de vida e avisaram que seria pior se retornasse ao país. Tirei foto de presidiário, fui fichado e saí correndo dali assim que pude. Encontrei meu marido no hotel. O gerente havia ido pessoalmente à prisão tentar ajudar. Segundo ele, é algo que acontece toda semana com hóspedes estrangeiros. Assinei papéis exigindo que eu não me pronunciaria sobre o caso, mas, na volta a São Paulo, onde moro, achei importante falar para evitar que outros passem pelo mesmo horror. Nos últimos vinte anos, mais de trinta países descriminalizaram a homossexualidade, mas ainda hoje há 65 nações onde ser LGBTQIA+ é crime. Isso, sim, é intolerável.

    Dennis van Wanrooij em depoimento a Duda Monteiro de Barros

    Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981

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