“Fui algemado e achei que iria morrer”
O advogado Dennis van Wanrooij, 40 anos, fala do pesadelo de ser preso no Catar por “trejeitos femininos”
Nunca me passou pela cabeça que os três dias que decidi passar no Catar virariam um pesadelo. Foi no meio de uma viagem a trabalho para o Nepal, em que a conexão seria na capital Doha. Já visitei muitos países muçulmanos e tive boas experiências com povos acolhedores. Como bissexual e advogado com atuação em prol dos direitos LGBTQIA+, sei que não é desejável expor minha orientação sexual em certos lugares. No Zimbábue e no Irã, onde inclusive trabalhei, por exemplo, sabia que o mais recomendado era parecer hétero, usando roupas mais masculinas. Claro que isso é uma manifestação de preconceito, mas jamais tinha vivido algo como agora, nesta ida ao Catar, em que me prenderam do nada, no meio da rua, sem qualquer explicação — um atropelo às noções mais básicas de civilidade e uma mostra da intolerância que ainda resiste no século XXI.
Escolhi um hotel conhecido, cinco estrelas, em região segura. Eu e meu marido, Ivens, fizemos apenas passeios em zonas turísticas, fomos ao deserto e caminhamos pelas ruas do centro. Até que, depois de jantar, resolvi comprar um sorvete em uma praça bastante movimentada, e ele saiu à procura de um café. Quando estava indo a seu encontro, um homem me mostrou um crachá e falou alguma coisa em árabe que não entendi. Tentei ignorar, mas logo surgiu mais um, se identificando como policial e dizendo, em inglês, que eu seria preso. Só deu tempo mesmo de mandar uma mensagem para meu marido avisando o que estava acontecendo e compartilhando minha localização. De repente, havia oito caras à minha volta. Cheguei à delegacia, que ficava a poucos metros, e confiscaram meu celular e passaporte. Aí o Ivens veio atrás de mim, em busca de informações, e acabou detido.
Fomos conduzidos a uma sala e começou um interrogatório sem fim. Uma agente afirmou sem meias-palavras: “Você é muito feminino”. Perguntavam se eu era homem ou mulher, desqualificavam minhas roupas, minha sexualidade. E mais: queriam saber se eu tinha me relacionado com algum cidadão do Catar. Pediram a senha do meu celular e vasculharam tudo, inclusive as redes. Depois de três horas, decidiram liberar meu marido, mas eu continuei lá. Deixei a delegacia algemado. Não informaram para onde eu estava indo e entrei em um carro preto. Aí desabei e comecei a chorar. Era uma mistura de ódio, raiva e medo, muito medo. Como as regras iam sendo criadas conforme as circunstâncias, achei que poderia morrer. Após quarenta minutos, chegamos a uma nova prisão. Ali, um dos policiais, para minha surpresa, se solidarizou com a situação e foi direto ao ponto: recomendou que parasse de chorar e pedisse desculpas para ser liberado. Foi o que fiz: pedi perdão para autoridades que usaram de poder para me humilhar.
Fui colocado em uma sala com mais presos, todos da comunidade LGBTQIA+. Conheci uma mulher trans britânica, que havia se mudado para Doha e me contou que as prisões de pessoas homossexuais são recorrentes por lá. A toda hora os policiais vinham nos xingar. Esse é o método: fazer a pessoa se sentir diminuída, uma tática comum de ditaduras. Aos poucos, você vai enlouquecendo. Passaram-se dezesseis horas e, do mesmo modo que me encarceraram, decidiram que eu podia ir embora. Deixaram claro que condenavam meu modo de vida e avisaram que seria pior se retornasse ao país. Tirei foto de presidiário, fui fichado e saí correndo dali assim que pude. Encontrei meu marido no hotel. O gerente havia ido pessoalmente à prisão tentar ajudar. Segundo ele, é algo que acontece toda semana com hóspedes estrangeiros. Assinei papéis exigindo que eu não me pronunciaria sobre o caso, mas, na volta a São Paulo, onde moro, achei importante falar para evitar que outros passem pelo mesmo horror. Nos últimos vinte anos, mais de trinta países descriminalizaram a homossexualidade, mas ainda hoje há 65 nações onde ser LGBTQIA+ é crime. Isso, sim, é intolerável.
Dennis van Wanrooij em depoimento a Duda Monteiro de Barros
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981





