“Estou no meu caminho de volta”
A chef Greta Guedes, de 46 anos, fala de sua luta contra a síndrome de Guillain-Barré, um distúrbio neurológico raro
Nunca imaginei que minha vida viraria de cabeça para baixo no meio de férias tranquilas, em março do ano passado, em Corumbá. Estava pescando com meu namorado quando comecei a sentir as pernas fracas, doloridas, formigando. Achava que fosse reação ao remédio novo que meu psiquiatra tinha prescrito. Parei por conta própria, pensando que em três dias tudo voltaria ao normal. Passei uma semana no barco e, no último dia, já não conseguia mais andar. Os pesqueiros me carregavam no colo. Nunca vou esquecer a sensação de perder o controle do meu próprio corpo. Quando voltei a São Paulo, deixei minha filha na escola e fui direto para o hospital. Tinha certeza de que era algo na coluna. Pedi para chamarem um ortopedista, mas a médica insistiu em acionar um neurologista. Quinze minutos depois, entraram na sala o chefe da neuro e outros dois médicos. Fizeram testes simples: andar, agachar, levantar o braço. Quando agachei e não consegui levantar, um deles me segurou no colo e mandou me internar imediatamente. Perguntei o que eu tinha: síndrome de Guillain-Barré, um distúrbio neurológico raro. Liguei para meus pais porque eu não conseguiria mais dirigir. A partir daí, começaram os exames. Fiz a eletroneuromiografia, aquele teste dos nervos com agulhas e choques. Na primeira vez, não senti nada — minha sensibilidade já estava comprometida. Na segunda, doeu muito. Fiz também a punção lombar, mas como o médico já tinha convicção do diagnóstico o tratamento começou imediatamente. Fiquei oito dias internada.
De repente, tudo o que eu conhecia como rotina desapareceu. Se consegui passar por esse período, foi porque tive apoio da minha família. Tive estrutura, e penso muito em quem não tem. A doença é lenta. Meu médico sempre dizia: “Pelo menos um ano”. Agora estou no décimo mês. Graças a Deus, já voltei a andar, mas ainda sinto dor, tenho dificuldade para subir degraus altos e não posso dirigir. Ando de aplicativo ou com motorista. No começo, acordava com onze comprimidos para tomar. Hoje, tomo quatro. A síndrome não “acaba”: como é autoimune, vou conviver com ela, me cuidando e respeitando o tratamento. O mais difícil, na verdade, foi não conseguir andar. Sempre fui ativa e de repente perdi 4 quilos de músculo só nas pernas. Também perdi equilíbrio e sensibilidade. Da canela ao joelho eu não conseguia distinguir quente de frio. Na cozinha, queimei meus dedos várias vezes sem perceber. Além da dor física, tem a dor psicológica, a pergunta que volta sem parar: “Por que comigo?”. Sempre me cuidei, sempre tive boa saúde… e, ainda assim, aconteceu.
Ainda estou no processo de compreensão do que houve e do que tenho. Aprendi a viver dentro dos meus limites. Na Quichiki (empresa artesanal de quiches e tortas, reputada em todo o país, premiada diversas vezes), precisei contratar pessoas para me ajudarem porque não consigo fazer tudo o que fazia antes, já que o cotidiano da gastronomia é feito de gestos delicados e precisos. Vou tocando a vida aos poucos. Sou muito positiva e acredito que ficarei boa. Sei que vou chegar lá. Mas, por enquanto, sigo respeitando o que meu corpo consegue entregar. Se tem uma mensagem que quero deixar, é a seguinte: prestem atenção nos sinais. Comigo começou com formigamento nas mãos e nos pés, cansaço, travamento. Dois anos antes já tinha tido episódios assim e trataram como ansiedade. Hoje acredito que era o início da doença. Então, se sentir algo parecido, busque ajuda especializada. Nem sempre é “só” ansiedade. É preciso investigar, principalmente em problemas neurológicos. Conhecer seu corpo é fundamental. Peça ajuda cedo. Enfim, sigo com a certeza de que estou no meu caminho de volta, mesmo sendo uma pessoa diferente.
Greta Guedes em depoimento a Simone Blanes
Publicado em VEJA de 9 de janeiro de 2026, edição nº 2977







