Carla Góes: “O tabu precisa acabar”
A cirurgiã que se notabilizou por recuperar faces de mulheres agredidas diz que a luta contra a violência doméstica deve começar na escola — e já
Qual o maior desafio de seu trabalho de quase uma década com mulheres agredidas? A maior dificuldade está no apoio da sociedade. A violência contra a mulher ainda é um assunto tabu, silencioso, escondido debaixo do tapete. Minha função é tirá-lo desse lugar para que seja discutido e combatido. As pessoas precisam entender que se trata de uma questão de saúde pública, presente em todas as classes sociais. O Brasil é o quinto país com o maior número de casos no mundo, registrando um alto índice de feminicídio. Por isso, é uma obrigação nos unirmos para brigar contra esse mal e conseguir acolher as vítimas e seus filhos.
O perfil dos atendimentos mudou desde o início do seu trabalho voluntário de recuperação de faces de mulheres violentadas? Mudou muito. Antes, chegavam mulheres adultas, mães de família, com uma história de relacionamentos mais longos. Com o passar dos anos, a faixa etária diminuiu. Hoje, há um número crescente de adolescentes que procuram nosso serviço e já vivem, cedo na vida, relações abusivas e violentas, sem perceber.
Qual o propósito da cartilha que a senhora elaborou, voltada para escolas, sobre violência contra a mulher? Crianças e adolescentes estão levando para a sala de aula o que frequentemente vivenciam em casa, normalizando esse tipo de conduta. Foi justamente por observar o avanço precoce da violência nas relações e a absorção da agressividade como algo natural que pensei em uma nova cartilha de prevenção, já aprovada para aplicação em colégios públicos, com foco na identificação dos sinais de abusos. Despertar a consciência já na infância é essencial para que situações assim sejam reconhecidas e interrompidas antes de evoluírem para agressões graves ou homicídios.
Quais os efeitos imediatos da cartilha? Inúmeras mulheres vivem relacionamentos abusivos e violentos e não conseguem entender o que está acontecendo. Há meninas que acham até bonito o namorado jogar o celular delas no chão durante uma explosão de ciúmes diante de mensagens que trocam com os amigos. É somente com informação que elas começam a reconhecer os indícios dessa violência, que na vida real costumam escalar para graus mais elevados à medida que o agressor vai se sentindo à vontade.
Que tipo de conteúdo a cartilha traz? Batemos muito ali na tecla da empatia, do respeito às mulheres e do consentimento. A ideia é que aprendam a identificar situações de violência. Desse modo, acabamos atingindo também as famílias. A sociedade como um todo precisa estar alerta à questão e retirá-la de uma vez por todas do rol dos tabus.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981





