Vivemos tempos curiosos. Nunca tivemos tantas facilidades, mas também nunca estivemos tão acuados. O marketing moderno descobriu um atalho eficiente para vender produtos, serviços e comportamentos: o medo. Não o medo abstrato, filosófico, que sempre moveu a humanidade. Mas o medo prático, cotidiano, quase doméstico. Aquele que aparece na tela do computador avisando que algo vai quebrar, travar, sumir ou nos excluir do mundo se não agirmos imediatamente.
— Seu computador vai parar! Seu celular ficará obsoleto! Seus dados serão roubados! Seu cadastro será cancelado! Seu acesso será bloqueado! Seu direito de ir e vir ficará comprometido! Você não poderá comprar uma sunga a crédito! — tudo isso acompanhado de um botão vermelho, um prazo urgente ou uma ameaça velada de exclusão social. Atualize agora! Cadastre já! Aceite os termos! Confirme a sua identidade!
“A tecnologia deveria nos libertar, não chantagear. Esse terror é perverso e silencioso”
O terror deixou de ser coisa de livros como Drácula ou de filmes como Pecadores, recordista de indicações ao Oscar, e passou a morar na rotina. Ele aparece em forma de notificação. De e-mail. De mensagem automática. Não grita, não sangra, mas paralisa. O medo de perder o acesso é o medo de deixar de existir. Hoje, quem não está cadastrado não circula. Não digo um cadastro governamental. Mas os muitos que somos obrigados a fazer. Outro dia uma amiga foi impedida de sair com o carro do estacionamento do shopping VillageMall, no Rio de Janeiro, se não baixasse um aplicativo e preenchesse um cadastro. Detalhe: para entrar não pediram nada. Quem não preenche não sai, quem não aceita não participa. Criou-se um mundo em que, para viver, é preciso autorizar. Para comprar, autorizar. Para viajar, autorizar. Para trabalhar, autorizar. Para amar, talvez ainda não, mas não duvido que em breve seja necessário aceitar termos e condições para isso — por exemplo, tirar uma verruga do nariz. O discurso é sempre o mesmo: “É para a sua segurança”, “É para a sua proteção”. Mas, curiosamente, quanto mais protegidos estamos, mais ameaçados nos sentimos. O marketing do medo não vende apenas produtos. Ele vende urgência. Vende dependência. Vende a sensação de que estamos sempre atrasados, sempre devendo, sempre a um clique de perder tudo. E, nessa corrida sem linha de chegada, vamos cedendo. Não porque concordamos, mas porque tememos ficar de fora.
O mais perverso é que esse terror é silencioso e educado. Não bate na porta. Ele pisca na tela. Não invade. Solicita. E nós, obedientes, clicamos. Afinal, quem quer correr o risco de ficar para trás?
Talvez seja a hora de desconfiar. De respirar antes de aceitar. De lembrar que viver não pode ser uma sucessão de ameaças disfarçadas de conveniências. A tecnologia deveria nos libertar, não nos chantagear. O progresso não pode ser um aviso constante de catástrofe. Uma sociedade que se move pelo medo não evolui, apenas obedece. Definitivamente, isso não é progresso.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981





