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Da estética à cultura, muitos torram grana por um pedigree

Por Walcyr Carrasco Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
29 out 2023, 08h00

De tanto lutar pela beleza, há quem se torne uma espécie de alienígena. Lábios de peixe, lábios de peixe e sorriso de piranha, sem duplo sentido (queira Deus). Digo com todo sentimento de solidariedade que é possível nessa situação. Mas é inevitável estremecer diante da vaidade de certas pessoas. Vaidade para mim não é pecado. Mas já passei pela experiência de convidar uma pessoa para uma gravação de TV. Guapo rapaz tido como um dos mais belos do país. Ele resolveu “melhorar”. Fez remodelação facial, uma das tendências mais fortes do mundo da estética. Olhos de peixe, boca de peixe, orelhas em forma de leque, dentes de roedor. Sentia-se o mais belo dos belos. Após uns instantes, eu e todos que nos acompanhavam conseguimos disfarçar usando a técnica do zíper, que consiste em abrir a boca e mantê-la com um belo sorriso de admiração maravilhado. (Também útil para receber Drácula caso ele sobrevoe sua aldeia). “Gostou?”, diz ele. “Que surpresa!”, respondo. “Acho que só falta um retoque na orelha!”, ele fala. Corro para não dizer alguma bobagem, no que sou especialista. E ainda tenho de ouvir: “Vou passar o endereço de meu especialista em beauty care!”. E eu: “Passe, passe”. Não ouvi falar muito mais do famoso. Parece até que resolveu desfazer a remodelação.

“Assim como se remodela o rosto, se remodelam também a origem, o passado — e até a família”

Esse foi um exemplo extremo. Mas são inúmeros os casos de quem se arrepende. E mais ainda de quem tem certeza absoluta de ter se tornado uma nova versão de Cleópatra. (Se bem que embalsamada.) Essa guerra pela aparência vem desde os tempos da Mesopotâmia ancestral. É certo. Muitos e muitas ainda vagam por lá, na esperança de conseguir a tão almejada beleza. Todo mundo gosta de dizer que a beleza está na simplicidade, em ter um mundo interior belo e encantador, em dizer frases filosóficas de vez em quando… A verdade é outra. Frases filosóficas propriamente poucos vão entender, já que poucos vão se interessar, já que não há um marcante gosto por filosofia. Literatura também atrai menos. Fala-se muito nas grandes obras literárias. Mas, quando alguém me diz gostar muito de ler, logo ouço que só não leu Cervantes, Balzac ou Thomas Mann porque são muito “grandes”. Mas, ahhh… livros longos com fotos artísticas têm seu lugar sobre as mesas das salas. São chiques de ter. Assim como se remodela o rosto, se remodelam também a origem, o passado — e até a família. Tive um conhecido que comprava foto de família. Até mesmo de casamentos antigos. Dava a impressão de serem de sua própria família: “É da minha tia, uma das mais elegantes da cidade, na cidade em sua época”. Mentira. Só queria dar a impressão de pertencer a outra camada social. É estranho ver gente que busca outra vida, outra classe social. E paga até caro por isso, comprando inclusive as medalhas de algum bisavô perdido que nunca conheceu, nem mesmo sabe de quem é. Pior: sente orgulho, tem a sensação de ser nobre, belo e nascido num pedestal. Não vejo mal nenhum. Tudo se compra, até mesmo pedigree.

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2023, edição nº 2865

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