Dizem que a idade nos envelhece. Eu discordo. A idade nos inventa. Cada ano é uma dobra do tempo que nos obriga a rever quem somos, quem fingimos ser e quem ainda temos medo de assumir. Ao escrever este texto, eu estava completando 74 anos. Não celebro só um ciclo: celebro as versões de mim que sobreviveram (sem contar aquelas em que enfiei o pé na jaca, mas é melhor nem falar delas).
Há quem acredite que, depois dos 50, 60 ou 70, a vida nos convida a uma resignação elegante, como se o palco estivesse se apagando aos poucos. Para falar a verdade, a versão que tenho apreciado melhor ultimamente é bem mais escrachada. Somos como carros, costumo dizer. Saímos da fábrica com a lataria em cima e um motor potente. Com o passar dos anos, os pneus se desgastam, precisamos trocar o óleo, os amortecedores e, eventualmente, até recondicionar o motor. Importante: nunca podemos esquecer da gasolina, senão o carro fica parado na rua. A maturidade é, realmente, quando o espetáculo finalmente começa. A juventude é intensa, sim, mas também insegura. Já a maturidade tem a audácia que só os anos ensinam. Descobrimos que podemos mudar de rumo sem pedir licença a ninguém. Trocar de paixão, de cidade, de profissão, de estilo, de amor. Reinventar tudo. A vida não nos engessa — somos nós que às vezes insistimos em caber dentro de molduras estreitas demais.
“Se existe algum privilégio em envelhecer, é o de escolher a própria história. Com calma e com coragem”
Sempre admirei quem se permite renascer. Minha própria mãe, já viúva, descobriu um grande amor aos 64, que durou até o fim de sua vida. Mais radicalmente, uma amiga que sempre foi hétero, com filhos crescidos, se apaixonou por uma mulher depois dos 50 e está muito bem, obrigado. O próprio jornalista e empresário Roberto Marinho, já falecido, criou a Rede Globo de Televisão aos 60 anos. Também já deparei com gente que não se escolheu porque alguém disse que a idade tinha passado. Mas quem decide o tempo? A idade não é uma sentença, é uma ferramenta, é até um convite. Nesse aniversário, pensei muito nas versões que ainda posso me permitir ser. Nunca é tarde para mudar de sonho. A idade não limita, a idade amplia. Se existe algum privilégio em envelhecer, é o de finalmente escolher a própria história. Com calma. Com coragem. Com desejo. A idade que nos inventa também devolve o que adiamos, o que fingimos não querer.
Faço aniversário e percebo: estou sempre começando. Que sorte! Porque se o tempo me transforma, eu também transformo o tempo. Sigo, sem medo, para a próxima versão de mim mesmo. Afinal, a vida não fecha a porta para ninguém. É a gente que precisa aprender a girar a maçaneta. Ou, nos tempos de agora, há portas que abrem com senha, digital, reconhecimento de face e mil outras maneiras. Atualizar o próprio sistema é seguir adiante, com coragem, desejo e a beleza de quem acredita que há sempre um próximo capítulo. Se a vida insistir em não abrir a porta, entro pela janela e ainda deixo um bilhetinho dizendo que foi só para não perder o hábito.
Publicado em VEJA de 19 de dezembro de 2025, edição nº 2975
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