Estaríamos vivendo a era do fim da culpa? Ou, talvez pior, a era da justificação permanente? Nunca se explicou tanto. Nunca se contextualizou tanto a respeito de tudo a nosso redor. Nada mais é simplesmente errado. Tudo precisa ser compreendido. E, uma vez compreendido, quase perdoado e absolvido.
Hoje, em suma, até mesmo o horror pede narrativa. Um serial killer mata. Em seguida, alguém escreve um livro dissecando o assassino e seus crimes. Descobre-se que sofreu na infância, que foi rejeitado, que apanhou, que não foi amado. Logo surgem especialistas analisando sua dor, roteiristas interessados em sua trajetória, plateias fascinadas por sua mente. A monstruosidade ganha explicação. E a explicação começa a produzir um desconfortável sentimento de empatia.
Personagens reais como Suzane von Richthofen ou o casal Nardoni deixam de ser apenas nomes associados a crimes brutais que frequentaram o noticiário nacional e passam a ocupar um outro lugar: o de protagonistas de séries, filmes, debates televisivos. Ganham tratamento estelar. Iluminação dramática. Trilha sonora. Close. Tornam-se objeto de curiosidade quase estética. O horror vira produto cultural. Não se trata de negar que traumas existam. Eles existem. Moldam, ferem, deformam. Mas desde quando o pretexto de um trauma virou salvo-conduto moral?
“Hoje, personagens reais como Suzane von Richthofen ganham tratamento estelar. O horror vira produto cultural”
Vivemos a cultura da causa. Tudo precisa ter uma origem que alivie a responsabilidade. Traí porque me senti carente. Humilhei porque fui humilhado. Roubei porque o sistema me excluiu. Gritei porque estou sobrecarregado. Ferimos, mas temos histórico. Destruímos, mas temos justificativa.
A culpa, essa antiga senhora que nos impedia de dormir em paz, parece ter sido aposentada. Em seu lugar, instalou-se a explicação. E explicar virou um ato quase terapêutico. Quase redentor. Mas há um risco nesse movimento. Quando tudo se justifica, nada mais se assume. Se todo ato encontra abrigo em uma narrativa pessoal, onde termina a compreensão e começa a responsabilização?
Talvez estejamos confundindo entendimento com absolvição. Entender não é inocentar. Compreender não é transformar criminosos em personagens fascinantes das telas.
A pergunta que fica para a sociedade é incômoda: estamos amadurecendo emocionalmente ou apenas sofisticando nossas desculpas? A culpa, embora seja um sentimento desconfortável, sempre desempenhou uma função civilizatória. Ela nos lembrava que existe limite para nossos atos. Que existe o outro. Que existe consequência.
Se substituímos a culpa por justificativas intermináveis e pelo culto a celebridades trágicas, talvez estejamos criando uma sociedade problemática, em que todas as pessoas têm suas razões — e ninguém tem responsabilidade.
E, sem responsabilidade, o que sobra de nós?
Publicado em VEJA de 6 de março de 2026, edição nº 2985







