O preço de ser uma máquina
Produtividade e conquistas podem esconder algo mais profundo: um padrão de evitação que drena energia, silêncio e prazer da vida pessoal
A sala inteira está de pé.
Aplaudindo você.
Você acabou de fechar o negócio.
Ou receber a promoção.
Ou bater a meta que ninguém achava possível.
E, por três segundos — talvez cinco — você sente algo.
Alívio, talvez.
Ou um lampejo de “consegui.”
Mas, antes mesmo de sair da sala, seu cérebro já está em outro lugar:
E agora?
Qual é o próximo?
O que eu preciso entregar amanhã?
E alguém vira para você e diz, sorrindo:
“Você é uma máquina!”
E você sorri de volta.
Mas, por dentro, algo aperta.
Porque você sabe: se parar, não sabe quem é.
O diagnóstico que ninguém faz
No consultório, eu escuto a mesma história em versões diferentes:
“Eu conquistei tudo que queria. Mas não sinto nada.”
“Estou crescendo. Mas não estou vivendo.”
“Não sei mais por que faço isso, só sei que sei fazer.”
A primeira reação é pensar: burnout. Ou falta de gratidão. Ou “síndrome do impostor.”
Mas, muitas vezes, o que está acontecendo é mais específico e mais invisível:
O sucesso virou evitação psicológica.
E não qualquer tipo de evitação.
É a mais difícil de identificar.
Porque o mundo te aplaude por ela.
O tipo de evitação que ninguém vê
A maioria das pessoas imagina evitação como:
- Procrastinar
- Fugir
- Desistir
- Sumir
Mas existe um tipo muito mais sofisticado.
Na psicologia clínica, chamamos de evitação reativa.
Funciona assim:
Quando seu cérebro detecta ameaça — real ou imaginada — ele ativa a amígdala e dispara três reações automáticas:
- Lutar
- Fugir
- Congelar
A maioria reconhece a fuga (procrastinar, recuar, horas no Instagram).
Mas poucos reconhecem a luta.
Você não foge do desconforto.
Você ataca.
Você não evita o projeto.
Você assume três.
Você não recua da meta.
Você dobra a aposta.
Você não para para sentir.
Você produz mais.
E, porque o mundo valoriza produtividade, ninguém — nem você — percebe que isso é evitação.
A cena que revela o padrão
Semana passada, uma cliente empreendedora que construiu um negócio em tempo recorde entrou no consultório.
Ela tinha acabado de fechar uma rodada de investimento.
O tipo de notícia que deveria gerar comemoração.
Mas, quando perguntei como ela estava, ela disse algo que saiu quase sem querer:
“Luana… eu não gosto mais disso.”
Silêncio.
A frase não veio com drama.
Veio com vergonha.
Como se gostar fosse luxo.
Como se o fato de ela ser boa tivesse virado obrigação.
Perguntei o que ela sentia quando pensava em desacelerar.
“Pânico.”
Ali estava o mecanismo funcionando em tempo real.
O cérebro dela não estava detectando perigo no trabalho.
Estava detectando perigo na pausa.
Quando ela pensava em parar, a amígdala disparava.
E a reação automática era: atacar.
Mais um projeto.
Mais uma meta.
Mais uma empresa.
Não porque ela queria.
Mas porque era a única forma de não sentir o pânico.
Por que o cérebro faz isso
Evitação reativa funciona porque oferece alívio imediato.
Você se sente desconfortável?
Você age.
Você entrega.
Você conquista.
E, por alguns minutos ou horas, o desconforto diminui.
O problema é que você não está resolvendo nada.
Você está adiando.
Porque, logo, o desconforto volta.
E você precisa atacar de novo.
E de novo.
E de novo.
É por isso que gente extremamente bem-sucedida muitas vezes se sente exausta.
Não é o trabalho que cansa.
É a evitação constante.
O custo real
O custo da evitação reativa não aparece no balanço financeiro.
Ele aparece no corpo que não descansa.
No relacionamento que esfria.
Nos filhos que você vê, mas não conhece.
Na vida que funciona por fora, mas está vazia por dentro.
Minha cliente percebeu isso quando eu perguntei:
“Quando foi a última vez que você fez algo sem objetivo profissional?”
Ela ficou em silêncio.
Não porque não lembrava.
Mas porque a pergunta a assustou.
Ela tinha evitado por tanto tempo a vida pessoal — saúde, relacionamento, descanso — que criar mais uma empresa parecia mais fácil do que enfrentar o vazio.
Como identificar se isso é você
Não é uma pergunta filosófica.
É uma pergunta comportamental.
Responda com sim ou não:
- Quando você termina um projeto, sente alívio… mas logo vem a ansiedade de “e agora?”
- Você sente culpa, quase pânico, quando não está produzindo?
- Seu corpo pede descanso, mas sua cabeça diz que você não pode parar?
- Você já teve sucesso suficiente para parar, mas a ideia de parar te assusta?
Se respondeu sim a pelo menos duas dessas perguntas, você não está diante de ambição.
Você está diante de evitação reativa.
O primeiro passo (que não é o que você imagina)
A maioria das pessoas espera que eu diga: “pare de trabalhar tanto.”
Mas esse não é o primeiro passo.
Porque, se você simplesmente parar, o pânico vai vencer.
E você vai voltar a atacar, talvez com mais força ainda.
O primeiro passo é coletar dados.
Esta semana, toda vez que você disser “sim” a um projeto, compromisso ou meta, pause por 10 segundos.
E pergunte:
“Estou escolhendo isso ou estou fugindo de algo?”
Não tente mudar nada.
Não se julgue.
Só observe.
Anote a resposta em um caderno ou no celular.
No fim da semana, você terá um mapa do seu padrão de evitação.
E esse dado, esse reconhecimento claro de quando você está atacando para evitar, é o que permite mudança real.
Porque você não consegue mudar o que não vê.
Se esse texto descreveu você, me escreva no Instagram @luanamaques.phd.
Me mande: o projeto que você disse “sim” essa semana e se foi escolha ou fuga.
Eu leio. E respondo.
E se você quer entender como sair desse padrão com rigor psicológico, o caminho continua no meu livro Viver com Ousadia.
Nos vemos na próxima coluna.





