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Maitê Proença fala de relação bi, de ayahuasca e da defesa a Regina Duarte

Atriz, que apresenta a peça ‘O pior de mim’, em cartaz no Rio, conversa com VEJA

Por Giovanna Fraguito Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Valmir Moratelli Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO Atualizado em 14 Maio 2024, 00h10 - Publicado em 20 jul 2023, 11h00

Maitê Proença, 65, retorna aos palcos com a peça O Pior de Mim, em cartaz no Teatro das Artes, na Gávea, na Zona Sul do Rio. O monólogo, dirigido por Rodrigo Portella, põe a atriz frente a frente com tragédias particulares e coisas que “todos nós fazemos e eu também, as quais eu jamais contaria”, como relata ela própria à coluna. Em quase uma hora de conversa, a atriz fala de experiências pessoais com drogas, amor por mulheres e seus traumas – entre eles, a perda da mãe assassinada pelo pai, que depois se suicidou, assim como o irmão.

O monólogo O Pior de Mim passou pelos formatos on-line e híbrido antes de chegar aos palcos. É diferente quando não se tem o público presente? Na pandemia a gente chamava de teatro, mas teatro sem gente não é teatro. É outra coisa. No teatro você sente que tem que falar com o último sujeito que está lá na plateia, mas ele não estava lá, eu não podia fingir que ele estava. Entendi que era íntimo. Foi essa intimidade que eu trouxe para o “ao vivo”.

Você já expôs várias vezes suas dores familiares em peças. No que isso a ajuda? Quando a gente resolveu fazer essa peça, lá na pandemia, era para reverter o dinheiro que entrasse para os profissionais de teatro, que estavam sem nenhuma perspectiva de futuro. E eu pensei: o que pode ser pertinente quando todo mundo está aqui olhando de frente para a morte? Só a verdade, a verdade crua. O que pensei era que, se eu falasse das minhas dores, dos fracassos retumbantes, das vergonhas, das coisas que todos nós fazemos, e eu também, as quais eu jamais contaria… Aquelas coisas que estavam trancadas a sete chaves, mas que, naquele momento de solidão profunda, pensei: agora é a hora. E não falo de um ponto de autopiedade. Se você olhar de frente, só está olhando para si mesmo. Não é um monstro, são nossos medos. Em algum momento tem que ser feito. O humor é uma forma de lidar com eles. A peça trata disso, é a minha ponte com as pessoas.

Em 2008 você lançou Uma Vida Inventada, livro em que conta segredos de sua vida, entre eles o fato de que, aos 16 anos, fez aborto. Passado esse tempo, como lida com esse tema? A gente sabe da gente. Cada um sabe das suas circunstâncias e deveria ser dada ao indivíduo a liberdade de escolha. Essa é a minha posição, não cabe a ninguém julgar o outro porque o Deus dele disse. O que ele sabe de Deus? As interpretações são as mais oportunistas. Por causa das crenças oportunistas, a gente cria regras que não fazem bem a ninguém.

Quando você tinha 12 anos, sua mãe foi assassinada pelo seu pai. Esse trauma ainda é forte na memória? Eu só falo desse assunto artisticamente. Fui obrigada a falar disso porque um dia eu estava em um programa de TV (Domingão do Faustão), numa tarde de domingo, e parte da minha vida foi exposta a todo o Brasil. Tinha 25 anos que eu era atriz, pessoa pública, e jamais tinha tocado no assunto, e jamais tocaria. Fui obrigada a contar a minha versão, porque a imprensa marrom podia ir lá meter a mão nos meus segredos. Qualquer um podia ir lá se meter naquilo que eu tinha optado por manter privado. Não é só essa, há uma série de consequências de tudo o que aconteceu depois, uma sucessão de eventos trágicos. Escolhi não falar deles por 25 anos, até que alguém resolveu abrir dessa maneira. Então escrevi um livro, que não era sobre mim, mas a história de duas mulheres, cheia de elementos biográficos. Foi a forma que consegui. E, se uma dessas mulheres do livro for a Maitê – e isso quem resolve é o leitor –, então O Pior de Mim, que é a peça que faço hoje, é o futuro daquela personagem.

Você já declarou que não se arrepende de ter experimentado drogas como haxixe aos 14 anos. O que as pessoas precisam saber sobre as drogas que ninguém fala? Na minha época, as drogas eram uma forma de autoconhecimento. Elas não estavam ligadas ao tráfico, a gente não sabia, tinha um peso menor nessa coisa das guerras do tráfico. Era uma coisa da era hippie: ‘Vamos abrir a consciência e expandir a consciência para que os preconceitos vão embora e entre o amor no lugar’. O amor compreende tudo, eu aceito o outro como ele é, diferente de mim. Nem sei o que as drogas de hoje fazem, porque as que experimentei, não tenho muita prática, foi uma ou outra, nem sei se gostei. Naquela época, elas faziam sentido e, de fato, cumpriram o objetivo de ampliação sensorial e até intelectual, da compreensão do outro. Era muita caretice não experimentar, a pessoa tinha que estar muito fechada em si, feito uma ostra. Por que é errado? Você já experimentou? Sempre é a ignorância que faz com que as pessoas julguem algo que elas não conhecem.

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Você ainda usa algo? Sempre fui muito fraca para drogas e bebida. Meu corpo não dá conta. Hoje em dia minha droga é a saúde, gosto mais. Até gosto de beber, mas tem que ser bem pouquinho. Se eu beber mais de uma taça de vinho, não durmo direito. Já usei canabidiol para dormir e acho super boa ideia. Tem que liberar tudo, deixar as pessoas verem o que elas precisam. Tudo poderia se beneficiar pelo bom uso, e o bom uso é o uso regulamentado.

Considera ayahuasca uma droga? Ainda segue a religião? Eu não considero ayahuasca uma droga, eles não conseguem determinar que seja droga. Todos os continentes têm drogas do saber, esses componentes para abertura de consciência. E expandir a consciência só traz benefício. Para mim foi revelador, foi assim ‘antes e depois’. Recomendo e não tomo Daime, porque o Daime me mandou não tomar, o próprio, mas isso depois de três anos tomando todas as semanas, com muita assiduidade.

Quando você assumiu que teve relacionamento com mulher, houve vários comentários que a assustaram. Considera-se bissexual? Não penso dessa maneira, penso que estava com um ser humano. Por acaso aquele ser humano era um ser humano feminino, e aí eu gostava das características daquele ser humano, que era mulher. E é isso, não é nada além disso, não vou botar eu mesma uma tarjeta na testa. As pessoas que façam isso. Eu sou livre.

Mas tem alguma diferença para você se relacionar com homem ou mulher? Tem diferença, sim. Por isso que é bom. Você varia, amplia.

Por que você parou de fazer novelas? Acabei de fazer Bom dia, Verônica, uma série que estreia ainda em 2023. Não é uma novela, mas uma série de sucesso. Foi bem gostoso de fazer. Não sei se existe falta, acho que não gostam de mim, sei lá, não me querem, não me convidam. Também a gente fica mais seletivo, trabalho em novela é bastante extenuante. Quando eu fazia muitas protagonistas, o personagem era muito central, com o tempo eles foram entendendo que atores ficavam doentes, não aguentavam fazer 30 cenas por dia. Hoje em dia, no máximo, tem 10. Antigamente, eram 35. Aí chegava em casa, depois de ter trabalhado dez horas, e tinha que decorar para o dia seguinte. É um negócio louco, não tinha tempo nem para respirar, isso adoecia as pessoas. Eles foram criando núcleos de importância quase equivalentes ao personagem central. Hoje as novelas são bem divididas, para que os atores aguentem. Mas quando me chamarem e eu achar o personagem suficientemente bom para aguentar a maratona, eu vou.

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Você se mostrou solidária a Regina Duarte, ex-secretária de Cultura do governo anterior, e foi criticada por isso. Se arrepende? As pessoas precisam poder expressar suas opiniões. Se a opinião dela é diferente da minha, não posso sair atirando pedras. É uma pessoa de que eu gostava até aquele momento, conheço ela há 40 anos. Só porque ela pensa diferente de mim, ainda que eu não compreenda o que ela enxerga, não posso sair atirando pedras. E eu achava cruel a classe artística fazer aquilo. Quando a defendi, as pessoas começaram a falar: ‘Você é bolsonarista’. Confundiram tudo. Eu estava defendendo uma colega rasgada em praça pública, antes de ela virar secretária de Cultura. Como tinha defendido ela, me senti no direito de ir lá cobrar. Passados um, dois meses, não tinha acontecido nada na secretaria e as pessoas estavam morrendo de fome. Então fui lá e ela ficou chateada. Mas continuo achando que pessoas estão intituladas a pensar como quiserem, senão é ditadura do pensamento. Essa é uma das coisas das quais eu me orgulho, de ter a escuta aberta.

Como avalia o começo de gestão do atual governo? Margareth (Menezes, ministra de Cultura) é uma pessoa maravilhosa, tem projetos culturais na Bahia, é minha amiga pessoal. Ela quer, ela deseja muito fazer um bom ministério e as condições são bem melhores atualmente. Tudo indica que as portas se abriram. O dinheiro que havia para a cultura estava lá, mas não era liberado. Trabalhadores das artes, de todos os setores, ficaram completamente desempregados e a cultura vinha sendo vilanizada por um bando de gente lobotomizada.

Serviço: Peça O pior de mim / Teatro das Artes (R. Marquês de São Vicente, 52 – Gávea, Rio de Janeiro) / Até 31 de agosto / Sábados, às 20h30 / Ingressos: R$ 60,00 (meia); R$ 120,00 (inteira)

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