Ao invés da tradicional lista dos livros de 2025, preparei o melhor que você pode ler para enfrentar o furacão político ano que se inicia. Privilegiei os livros mais recentes e lançados no Brasil com foco no que mais importa, as eleições de outubro. A lista, por temas:
A disputa
Em Os Sentidos do Lulismo (lançado em 2012), o cientista político e ex-porta-voz presidencial André Singer traça a mudança fundamental na geografia do eleitorado brasileiro, com o PT conquistando a massa dos mais pobres e, a partir do escândalo do Mensalão, sendo rejeitado para sempre pela classe média. Singer classifica criticamente o lulismo como um “reformismo fraco”, um governo de esquerda que amplia o consumo dos mais pobres sem mudar a estrutura social e econômica.
O Brasil Dobrou à Direita (2020) é fundamental para entender o fenômeno Bolsonaro e a força do antipetismo. Com uma base de dados brutal, o cientista político Jairo Nicolau mostra o avanço da direita entre evangélicos e como um candidato sem partido, sem tempo de TV e com pouco dinheiro derrotou o PT e o Centrão em 2018.
Em Biografia do Abismo (2023), eu e o cientista político Felipe Nunes defendemos a tese de que a polarização política havia transbordado para o cotidiano. Ser pró-Lula ou antipetista deixou de ser uma opinião para se transformar em uma identidade. Essa polarização calcificada é como um abismo que divide o país e impede que qualquer governo ou candidato tenha o apoio da ampla maioria da população seja qual for o tema.
Os juízes
Num país em que o STF prendeu e tirou da disputa ex-presidentes em duas das três últimas eleições, é impossível entender a eleição sem olhar para o STF. Produzido ainda com outra composição na Corte, Os Onze (2019), dos jornalistas Felipe Recondo e Luiz Weber, é essencial para entender a força das personalidades, relações pessoais e vaidades dentro do STF.
O dinheiro
Primeiro volume de uma trilogia, País dos Privilégios (2024), do economista Bruno Carazza, desenha a captura do Estado brasileiro pelas corporações combinando indignação e vigor acadêmico.
Os melhores livros sobre a persistente desigualdade brasileira são Os Ricos e os Pobres (2023), do sociólogo Marcelo Medeiros, e Extremos (2024), do economista Pedro Fernando Nery. Medeiros revela um Brasil de pessoas mais ou menos pobres, que vai ficando mais rico lentamente, mas cuja desigualdade aumenta quanto mais perto do topo da distribuição de renda. Visitando cidades díspares, Nery mostra como a desigualdade de renda se relaciona com expectativa de vida, violência urbana e mortalidade infantil.
A fé
Para compreender o fenômeno da conversão de milhões de brasileiros em evangélicos leia Povo de Deus (2020), do antropólogo Juliano Spyer, e A Religião Distrai os Pobres? (2022), do cientista político Victor Araújo, que se completam para explicar como o Brasil deixou de ser majoritariamente católico. O Púlpito, da jornalista Anna Virginia Balloussier (2023), é um mergulho na transformação que as religiões pentecostais estão promovendo no dia a dia e A Bancada da Bíblia (2024), do jornalista André Ítalo Rocha, esquadrinha a articulação política dos evangélicos no Congresso.
O fuzil
A segurança pública será tema essencial da campanha, mas o discurso de ‘bandido bom é bandido morto’ nem arranha o desafio de conter o crescimento das facções criminosas. O melhor livro sobre o crescimento da maior organização criminosa do país é A Guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil (2018), do jornalista Bruno Paes Manso e da socióloga Camila Nunes Dias. Oito anos depois do lançamento do livro, o PCC ampliou seus tentáculos para a política em uma cópia da ação da milícia carioca, tema de outro livro de Paes Manso, (República das Milícias, de 2020), de Milicianos, do jornalista Rafael Soares em 2023, e de Como Nasce um Miliciano, de 2025, da jornalista Cecília Olliveira.
O estrangeiro
Depois da intervenção na Venezuela resta zero dúvidas do protagonismo de Donald Trump no continente, e possivelmente nas eleições brasileiras de 2026.
Trump passou a campanha inteira negando que um documento de quase mil páginas do think-tank Heritage Foundation fosse o eixo do seu governo. Os fatos, no entanto, são teimosos. Em O Projeto (2025), o jornalista David A. Graham mostra como Trump está seguindo um roteiro autoritário e nacionalista que substitui o sistema de pesos e contrapesos por uma presidência imperial.
A revanche eleitoral de Trump é muito bem contada em Retribution: Donald Trump and the Campaign That Changed America (2025), do jornalista Jonathan Karl. A demora na retirada da candidatura de Biden e a rendição das Big Techs ao novo presidente são descritas como thriller. “Eu era a presa. Agora, sou o caçador”, se autodefine Trump.
As redes
Autor do já clássico Engenheiros do Caos (2019), o advogado e cientista político italiano Giulano Da Empoli faz de A Hora dos Predadores (2025) um alerta sobre a aliança entre oligarcas da tecnologia e autocratas carismáticos. Se você pensou em Trump e as Bigh Techs operando contra qualquer restrição, pensou certo.
As regras
Laureados com o Nobel de Economia de 2024, os economistas Daron Acemoglu e James A. Robinson mostram em Por que as Nações fracassam (2012) que o sucesso de um país pode ser ajudado pela geografia, recursos naturais e padrões de educação, mas que apenas é sustentável com instituições fortes.
Num momento em que o futuro da democracia é incerto, Por que as Eleições Importam? (2021), do veterano cientista político polonês Adam Przeworski, é um bálsamo de realismo. Apenas a possibilidade da alternância pacífica de poder pode assegurar a cobrança necessária para um Estado minimamente eficiente.
Em Breve
Alguns lançamentos previstos para 2026: o livro de Natuza Nery sobre o julgamento de Jair Bolsonaro e os generais golpistas, a biografia do populista de direita Carlos Lacerda, por Mário Magalhães, e do populista de esquerda Leonel Brizola, por Karla Monteiro. Aproveitando a campanha, Fernando Moraes apresenta o segundo volume da sua biografia de Lula. Se tivermos sorte, Bruno Carazza lança o segundo volume de País dos Privilégios.
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