Norman Lear lança autobiografia
A cada década, a TV americana faz surgir um (ou mais) roteirista e produtor que se torna uma espécie de Midas. Tudo o que faz vira sucesso ou, no mínimo, é bem recebido conseguindo se manter no ar. Na década de 1970 um dos Midas da TV americana era Norman Lear, que entre 1971 e […]
A cada década, a TV americana faz surgir um (ou mais) roteirista e produtor que se torna uma espécie de Midas. Tudo o que faz vira sucesso ou, no mínimo, é bem recebido conseguindo se manter no ar. Na década de 1970 um dos Midas da TV americana era Norman Lear, que entre 1971 e 1979 chegou a oferecer um total de dez séries, mais alguns telefilmes.
A importância de Lear para a TV americana vai além da quantidade de séries e sucessos que ele produziu. Lear reformulou as sitcoms, promovendo uma mudança na forma de fazer comédia que é sentida até hoje (mais nas produções da TV a cabo que na rede aberta). Lear trouxe para a TV as topical sitcoms, comédias de situações que faziam humor com base em questões sociais, religiosas e políticas, explorando tabus.
Para entender a revolução que suas produções promoveram é preciso ter uma ideia do tipo de comédia que era feito na TV nas décadas anteriores. Voltada para toda a família, a televisão da década de 1950 construiu sua programação em torno de programas humorísticos e sitcoms. Eles eram mais importantes para os executivos da TV que os dramas. As produções dramáticas, mais precisamente os teleteatros, eram realizadas para atrair o interesse dos críticos e dos intelectuais que desdenhavam o veículo. O público (e com ele os anunciantes) era atraído pela comédia.
Desta forma, uma regra se estabeleceu: jamais insultar o telespectador abordando temas polêmicos ou questões sociais, religiosas e políticas que pudessem dividir opiniões. No máximo, esses temas eram tratados como uma forma de educar a sociedade e não de gerar questionamentos. Estas produções tinham que ser um meio de entreter a audiência. Assim, as comédias de situações se dividiam entre humor físico e didático.
Mantendo uma abordagem ingênua ou restrita à rotina de uma família (que quando se envolvia em questões sociais era para cumprir seus deveres morais e cívicos), as sitcoms atravessaram duas décadas evitando expor para o público os problemas da vida real.
A guerra do Vietnã e os questões sociais que os EUA enfrentavam já se faziam presentes nas séries dramáticas da década de 1960. O mesmo não acontecia com a comédia (com raros momentos considerados exceções à regra). Este formato continuou a ser protegido dos temas polêmicos, mantendo-se como um refúgio para o telespectador que desejava fugir de tudo isso e viajar pelo mundo idealizado da fantasia.
Ao longo da década de 1970, Lear mudou este perfil, trazendo para as sitcoms debates sobre questões reais, que aconteciam na vida do americano comum. Quando Tudo em Família/All in the Family estreou em 1971, a TV americana já estava exibindo Mary Tyler Moore, série que retratava o avanço da personagem feminina na sociedade. Mas esta ainda era uma produção ‘segura’. Tudo em Família trouxe para as sitcoms o preconceito étnico e religioso, as diferenças de classe sociais e gêneros, e os questionamentos sobre as leis e o governo.
O sucesso de Tudo em Família (veja matéria sobre a série aqui) fez surgir outras produções que exploraram o mesmo tipo de abordagem. Muitas delas foram produzidas pelo próprio Lear, sendo que algumas eram spinoffs de Tudo em Família. Caso de Maude (que gerou Good Times), The Jeffersons (que gerou Checking In) e Gloria. Mas Lear também fez Sanford & Son, One Day At a Time e Mary Hartman, Mary Hartman, entre outras.
‘The Jeffersons’ (Foto: CBS/Arquivo)
Com o título de Even This I Get to Experience, a autobiografia de Lear será lançada no dia 14 de outubro pela Penquin Press. Leitura obrigatória para todo o fã de seriado que deseja conhecer a história do formato nos EUA.
Aos 92 anos de idade, Lear faz um levantamento sobre sua vida. Nascido em 1922, em uma família judia russa, ele passou pela Grande Depressão econômica americana. Filho de um vendedor que, para conseguir dinheiro rápido e fácil, costumava aplicar golpes, Lear precisou morar com parentes quando o pai foi preso. Ao longo de sua infância, ele desenvolveu o humor como arma para enfrentar as dificuldades financeiras e afetivas pelas quais passava. Lear descreve o pai como um homem intolerante, que lhe deixou uma importante lição de vida: ser o oposto do que ele era.
Na década de 1940 Lear lutou na 2ª Guerra Mundial, época em que começou a produzir shows de variedades para entreter seu esquadrão. Com o fim da guerra, ele foi para Nova Iorque, onde trabalhou como assessor de imprensa.
Em 1949, fez as malas e se mudou para Los Angeles. Um de seus primeiros trabalhos foi o de escrever piadas para as apresentações de Danny Thomas como stand-up. Na platéia estava um agente, que lhe conseguiu seu primeiro trabalho na TV.
Ele começou como roteirista em programas humorísticos e sitcoms, passando a produtor em seguida. A primeira série que Lear criou foi o faroeste The Deputy, estrelado por Henry Fonda.
Uma matéria no Variety que falava sobre a série britânica Till Death Us Do Part chamou sua atenção. A série, que retratava a relação que existia entre um homem da classe operária com opiniões opostas ao do genro, um rapaz mais aberto para as mudanças do mundo, fez Lear lembrar da relação que ele tinha com seu pai. Razão pela qual decidiu adquirir os direitos de adaptação antes mesmo de assistir à produção britânica.
Na mesma época que produzia Tudo em Família, Lear também preparou Sanford and Son, outro remake de série britânica, chamada Steptoe and Son, a qual também trazia um personagem que fazia Lear lembrar de seu pai. A versão americana era estrelada por atores negros, levantando questões em torno de preconceitos étnicos.
O livro de Lear revela um pouco sobre os bastidores de produção de suas séries.
Considerando a revolução que ele ajudou a promover, era de se esperar que os maiores obstáculos que teve que transpor seriam aqueles criados pelos executivos do canal e pela sociedade. No entanto, embora os executivos criassem problemas, em seu livro Lear revela que uma das maiores dificuldades era a de ter que lidar dia a dia com o ego e as inseguranças dos atores que trabalhavam em suas produções.
Apesar do sucesso obtido com as séries (ou talvez por causa dele), os atores se tornavam cada vez mais possessivos em relação aos personagens que interpretavam, e também mais inseguros. Enquanto Carroll O’Connor, intérprete de Archie em Tudo em Família, questionava cada cena e muitas vezes se recusava a gravar por medo da reação do público a um tema polêmico, atrizes como Esther Rolle, de Good Times, acreditavam que tinham que respeitar e atender aos interesses de sua comunidade na representação de uma família negra em horário nobre. Com isso, ela se deixava levar por todas as opiniões de terceiros, mas não as de Lear.
Para os executivos da rede CBS, o mais importante era ter um episódio inédito pronto para ser exibido na semana seguinte. Por maiores que fossem as dificuldades enfrentadas, fossem elas causadas pelos atores ou pelo canal, Lear teria que entregar o episódio ou a série seria cancelada e ele seria processado por quebra de contrato.
O livro de Lear traz ainda outras curiosidades de bastidores, desde a forma como ele conseguiu que suas séries tivessem sua produção aprovada, passando pela seleção de elenco, os altos e baixos da produção, chegando ao seu cancelamento. O roteirista e produtor também fala de sua vida pessoal, contando um pouco sobre sua infância, seus casamentos, famílias e problemas financeiros.
Com o fim da década de 1970, as topical sitcoms foram gradualmente perdendo força, sendo substituídas por sitcoms que retomavam a abordagem didática sobre como ser um bom cidadão e filhos/pais. Neste formato, Caras e Caretas/Family Ties e The Cosby Show dominaram o período, tornando-se grandes sucessos da década de 1980.
Envolvido em outros trabalhos, Lear foi, aos poucos, se afastando da televisão. Mas seu trabalho influenciou o surgimento de outras séries igualmente importantes para o veículo, como Os Simpsons, South Park, Murphy Brown e Roseanne, que seguiram a cartilha de Lear. Hoje, seu legado pode ser encontrado nas comédias da TV a cabo.
Nos últimos vinte anos, o produtor e roteirista vinha prometendo lançar sua autobiografia, mas adiava porque acreditava que era mais divertido viver a vida que escrever sobre ela. Por sorte, ele mudou de ideia.
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