A saia justa da Netflix com humor politicamente incorreto de Rick Gervais
Especial do implacável comediante britânico, lançado nessa semana, já causa controvérsia nas redes por piadas transfóbicas e humor ácido

Não deu tempo nem de acalmar os ânimos depois da perda inédita de assinantes antes que a Netflix se envolvesse em uma nova controvérsia. Na terça-feira, 24, a plataforma lançou o show de stand-up Rick Gervais: Supernatureza, que já estreou provocando críticas iradas na redes sociais e de grupos ativistas por piadas tidas como transfóbicas. “Assistimos ao especial de comédia de Ricky Gervais na Netflix para que vocês não precisem. Está cheio de discursos explícitos, perigosos e anti-trans disfarçados de piadas”, disse a ONG Glaad em um comunicado.
Conhecido por um humor ácido que não poupa ninguém, Gervais introduz o programa avisando que fará piadas de mau gosto. “Vou dizer algo que não quero dizer para efeito cômico, e vocês, como público, riem da coisa errada porque sabem qual é o certo”, anuncia, limpando a própria barra de antemão. Logo em seguida, o comediante fala ao público durante uma hora e, em vários momentos, zomba das “novas mulheres” com barba e pênis – como se refere, em tom de deboche e apoiado por risadas de fundo, às mulheres trans. O comediante também ataca o uso de banheiros conforme a identidade de gênero, esnoba o uso de pronomes adequados e faz piadas ligando o HVI à comunidade LGBTQIA+.
A escolha de Gervais não é aleatória: o dito humor “politicamente incorreto” faz sucesso com aquela parcela da população que costuma dizer que o mudo está muito chato, mas não pega bem em um momento em que as discussões sobre identidade de gênero e homofobia estão em alta em todo mundo, pautando também uma evolução no humor, que agora faz um esforço para tirar as minorias de um lugar vexatório. Ciente disso, Gervais opta por seguir “à moda antiga”, consciente de que as piadas, em menor ou maior grau, são ofensivas. “Vou deixar isso aqui para irritar as pessoas”, confessa em uma passagem. “Falo sobre aids, fome, câncer, Holocausto, estupro, pedofilia, mas a única coisa que não se deve brincar é a política de identidade de gênero”, complementa, antes de discursar sobre a cultura do cancelamento e se dizer a favor dos direitos trans “na vida real.”
Se por um lado a abordagem faz sucesso com a parcela mais conservadora da população, ela também coloca a Netflix em uma saia justa. No ano passado, funcionários da empresa organizaram uma série de protestos depois que o especial The Closer, do comediante Dave Chapelle, estreou na plataforma também com piadas consideradas transfóbicas. Recentemente, a empresa anunciou em um memorando que não iria censurar qualquer tipo de conteúdo na plataforma e que os funcionários teriam que trabalhar em conteúdos que, eventualmente, não concordem. “A Netflix tem uma política em que conteúdos ‘projetados para incitar ódio ou violência’ não são permitidos, mas todos sabemos que é exatamente isso o que faz seu conteúdo anti-LGBTQ”, acusa a ONG Glaad em comunicado. “Embora a Netflix seja o lar de programas LGBTQ inovadores, ela se recusa a impor sua própria política na comédia.”
Nas redes sociais, uma ex-funcionária envolvida com os protestos contra o especial de Chapelle convocou os seguidores a cancelarem suas assinaturas. Charlotte Clymer, ex-secretária da Campanha de Direitos Humanos, também declarou o abando à plataforma, enquanto a ativista Erin Reed descreveu o show de Gervais como “o conteúdo mais transfóbico lançado pela plataforma até então”, destacando que a produção estreia em um momento em que projetos de lei que limitam os direitos trans avançam em todo o país. A produção reacende a eterna discussão sobre os limites do humor, tema em alta depois dos ataques a Chapelle e ao tapa de Chris Rock em Will Smith no Oscar.