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Por Kelly Miyashiro
Críticas e análises sobre o universo da televisão e das plataformas de streaming
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A nova – e devastadora – visão das séries sobre violência contra a mulher

Da fantasia às tramas criminais, as atrações mostram que a culpa não é mais só do agressor, mas de todos que se omitem

Por Amanda Capuano Atualizado em 19 set 2022, 11h33 - Publicado em 18 set 2022, 08h00

Rhaenyra Targaryen é uma mulher forte. Aos 17 anos, controla dragões como quem adestra cachorrinhos e é herdeira do cobiçado Trono de Ferro. Aos olhos dos homens dos Sete Reinos, porém, nada disso importa: ela, como todas as outras mulheres ali, é só uma moeda de troca para que os garanhões alcancem suas ambições de poder por meio do casamento. Usada pelo tio e pelo pai ao bel-prazer, a princesa de A Casa do Dragão atesta uma tendência cada vez mais presente nas séries: mais que apenas retratar a violência contra a mulher, as produções atuais destacam o teor sistêmico das agressões a que elas são submetidas. Agora, a violência não decorre só da falta de caráter de um homem, mas de uma sociedade que escolhe fechar os olhos diante dos desmandos masculinos.

Bom dia, Verônica

Exibido recentemente pela HBO, o quarto episódio da série deixa isso ainda mais explícito. Rhaenyra vive uma situação periclitante com o tio, Daemon (Matt Smith), da qual mesmo mulheres com sangue de dragão teriam dificuldade em se livrar sem sequelas. As agruras também atingem sua ex-amiga e rival Alicent (Emily Carey). Casada com o rei para atender aos desejos do pai ambicioso, a personagem é requisitada pelo marido no meio da noite, e acaba atendendo ao chamado a contragosto — afinal, sua função como esposa é dar prazer e herdeiros ao rei, mesmo que isso signifique entregar-se a uma relação que mais parece estupro. Fruto da mente provocativa de George R.R. Martin, a sociedade de Westeros impõe às suas mulheres uma ideia falsa de consentimento: criadas para servir aos desejos masculinos, elas não têm outra escolha a não ser cumprir com o seu dever e “consentir” com o ato, ainda que contra sua vontade.

LUTA INGLÓRIA - Bom Dia, Verônica: a anuência da sociedade com a violência -
LUTA INGLÓRIA - Bom Dia, Verônica: a anuência da sociedade com a violência – (Laura Campanella/Netflix)

Mesmo longe dos domínios da fantasia, a coisa não fica mais fácil para elas. Uma visão mais complexa e politizada do abuso contra a mulher permeia novas produções dos mais diversos gêneros. Sucesso nacional da Netflix, Bom Dia, Verônica apresenta uma trama criminal envolvente. O verdadeiro tema, porém, acaba sendo a violência contra a mulher. Em suas duas temporadas, a série ilustra bem o alcance da recente mudança de enfoque sobre o problema. Na primeira, a agressão ficou centralizada na loucura de um único homem, Brandão (Du Moscovis), policial que agride a esposa e mata outras mulheres por prazer. O trato é semelhante ao dado na série Você, outro hit da Netflix que mostra a violência contra a mulher sob a óptica de um psicopata que age por puro sadismo. Já na temporada mais recente de Bom Dia, Verônica, a visão se amplia. Reynaldo Gianecchini faz um líder religioso que abusa de fiéis e da própria filha, vivida por Klara Castanho — e sua impunidade se sustenta sobre o machismo arraigado. As barbaridades se propagam como um vírus com a anuência da igreja, da polícia e de todos que se recusam a acreditar na palavra das vítimas, já que os agressores são “homens de bem” supostamente perseguidos por mulheres malucas.

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O conto da aia

Inspirada em histórias reais, a também brasileira Não Foi Minha Culpa, do Star+, traz o tema com um realismo visceral: não há costumes medievais ou psicopatas, apenas a realidade nua e crua da misoginia. Reunindo vários casos, a produção mostra que, não raro, o entorno decide olhar para o outro lado e seguir com a vida enquanto mulheres são agredidas. “Agressivo, o Fernando? Boa-pinta daquele jeito?”, diz um dos personagens. “Deixa para lá, minha filha, casal é assim mesmo”, comenta uma vizinha, enquanto ouve uma discussão violenta no apartamento da frente.

AGRURAS FEMININAS - The Handmaid’s Tale (à dir), Maid (à esq., no alto) e Não Foi Minha Culpa: visões da violência que se propaga como um vírus -
AGRURAS FEMININAS - The Handmaid’s Tale (à dir), Maid (à esq., no alto) e Não Foi Minha Culpa: visões da violência que se propaga como um vírus – (Ricardo Hubbs/Netflix/Star+/Sophie Giraud/HULU)

Mesmo quando as vítimas conseguem se livrar do ciclo de agressões, a violência segue presente na vida delas. Na série americana Maid (Netflix), Alex (Margaret Qualley) foge de casa com a filha pequena após sofrer uma série de abusos psicológicos. Sem formação nem apoio, vai trabalhar como faxineira para garantir o sustento da filha, e precisa de determinação para não ceder aos julgamentos e voltar com o marido abusivo.

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Os Testamentos

Nenhuma outra produção, porém, leva o tema às últimas consequências como The Handmaid’s Tale — cuja quinta temporada estreia no Para­mount+ neste domingo, 18. Inspirada na distopia de Margaret Atwood, a série retrata um mundo onde a violência contra a mulher não apenas tem anuência da sociedade como foi institucionalizada pelo governo. É um alerta extremo, mas instrutivo, de onde podemos chegar se continuarmos fechando os olhos para o problema.

Publicado em VEJA de 21 de setembro de 2022, edição nº 2807

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