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Sobre Palavras

Por Sérgio Rodrigues Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

‘Sequer’ pode dispensar o auxílio de um advérbio de negação?

Segundo a gramática tradicional, não. Mas esse advérbio vem passando por uma clara transformação

Por Sérgio Rodrigues
12 ago 2015, 16h41 • Atualizado em 31 jul 2020, 00h44
  • “Tenho encontrado inúmeros casos nos quais o advérbio ‘sequer’ aparece negando, inclusive na imprensa escrita. Ex.: ‘Choveu tão pouco que as pessoas sequer ficaram molhadas’. Ora, aprendi que o gramaticalmente correto é dizer que ‘as pessoas nem sequer ficaram molhadas’, pois, segundo aprendi, o ‘nem’ nega e o ‘sequer’ sozinho não nega nada. Mudou a regra, ensinaram-me uma inverdade ou está todo mundo errando mesmo? Agradeço seu abalizado esclarecimento acerca da questão e aproveito para dar-lhe os parabéns pela coluna, da qual sou leitor assíduo.” (Marcus Vinicius Arruda)

    Segundo as gramáticas normativas – que ainda são as grandes balizadoras do certo e do errado em questões de língua –, sim, o uso apontado por Marcus Vinicius é indevido: o advérbio “sequer” precisa, segundo elas, do auxílio de um advérbio de negação como “não”, “nem” ou “nunca”.

    Ocorre que “sequer” tem passado por uma clara transformação. Como tratei do tema numa coluna do já distante ano de 2010, repito abaixo os argumentos que apresentei então.

    Se considerarmos que “sequer” significa simplesmente “ao menos”, a frase trazida pelo leitor (“As pessoas sequer ficaram molhadas”) jamais poderia prescindir de um advérbio de negação. No entanto, construções semelhantes prescindem deles o tempo todo no português da vida real, aquele que de fato se fala e se escreve, pelo menos no Brasil e inclusive no discurso de pessoas cultas. E agora?

    Há duas formas de encarar a questão, à escolha do freguês. Uma é lamentar a decadência do idioma e lutar para que “sequer” tenha apenas o uso autorizado pelos sábios. A causa está provavelmente perdida de antemão, mas costuma dar a seus defensores alguma medida de conforto moral.

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    O segundo caminho, mais condizente com a linguística moderna, é reconhecer que as línguas vivas são organismos em constante evolução. Dessa nova perspectiva, parece natural e até saudável – segundo um princípio de elegância e concisão – que de tanto ser usado em construções de sentido negativo, e no português moderno quase exclusivamente nelas, “sequer” tenha incorporado a negação.

    Ao se comportar assim, “sequer” tem pelo menos um predecessor ilustre: no português antigo, “jamais” desempenhava o papel subalterno de ajudante de advérbios de negação. Isso significa que era correto dizer o seguinte: “Nunca já mais (ou jamais) escreverei assim”. Veja-se que, no caso, não se tratava de negação dupla – não ainda. Foi de tanto auxiliar a negação que “jamais” acabou promovido a sinônimo de “nunca”.

    Quem acha que posturas desse tipo logo nos conduzirão à barbárie deve ler ou reler um poeta que dificilmente poderia ser considerado um visigodo do idioma: Carlos Drummond de Andrade começou assim o poema O mito, publicado no ano de 1945 em “A rosa do povo”:

    Sequer conheço Fulana,
    vejo Fulana tão curto,
    Fulana jamais me vê,
    mas como eu amo Fulana.

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