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Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Por que chamamos sírios e libaneses de turcos

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Por Sérgio Rodrigues 29 nov 2012, 13h08 | Atualizado em 31 jul 2020, 07h19
Por que chamamos sírios e libaneses de turcos Priorizar nos meus resultados Google

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Seu Nacib (Humberto Martins) em “Gabriela”: turco?

“Olá Sérgio, gostaria de saber por que os árabes – sírios, libaneses e seus descendentes – são chamados aqui no Brasil de ‘turcos’.” (Jener Sapia)

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A excelente consulta de Jener nos obriga a ir longe na história. Turco como sinônimo de árabe, especialmente sírio e libanês, é um brasileirismo informal, descuidado com as particularidades da cultura alheia, mas não é gratuito. Para sondar sua motivação temos que embarcar numa viagem que começa na Idade Média e vai até a segunda década do século 20, marcos de nascimento e morte do Império Otomano.

Sob a liderança da dinastia otomana, os turcos radicados na região da Anatólia chegaram a exercer sobre diversos povos vizinhos um domínio que incluía, em seu auge, não apenas o Oriente Médio, mas o norte da África e o sudeste da Europa. Quando, em 1453, tomaram Constantinopla (hoje Istambul, maior cidade da Turquia), decretaram o fim do Império Romano do Oriente, também conhecido como Bizantino, e para muitos historiadores o fim da Idade Média.

A decadência do Império Otomano começou no século 19 e se agravou rapidamente até sua extinção, em 1922. No núcleo do ex-império foi criada então a República da Turquia. No entanto, quando começaram a chegar ao Brasil grandes levas de imigrantes árabes, sobretudo libaneses e sírios, entre o fim do século 19 e o início do 20, suas terras ainda eram dominadas pelos otomanos. Fugir da opressão era um dos motivos que os empurravam para o Novo Mundo, o que torna o fato de ficarem conhecidos aqui como turcos uma ironia – e uma crueldade – da história.

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Mas por que isso aconteceu? A explicação mais óbvia está nos documentos de viagem turcos que os recém-chegados traziam. Em sua novela “A descoberta da América pelos turcos”, Jorge Amado expõe o caso assim: “Os primeiros a chegar do Oriente Médio traziam papéis do Império Otomano, motivo por que até os dias atuais são rotulados de turcos, a boa nação turca, uma das muitas que amalgamadas compuseram e compõem a nação brasileira”.

É interessante reparar como, ao modo festivo típico da segunda fase de sua obra, o escritor baiano, na mesma frase em que registra a inadequação – não muito diferente, como processo linguístico, daquela que transformou paraíba em sinônimo pejorativo de nordestino em geral – a assimila e celebra. A “boa nação turca” não é propriamente turca, mas isso deixa de ter importância no momento em que ela se funde à “nação brasileira”, vista como capaz de dissolver esses e outros conflitos.

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