Pânico, o terror que veio do deus Pã
Sobram os mais diversos motivos de pânico no Brasil de 2015. Pânico, como se sabe, é um substantivo masculino que o Houaiss define assim: “1. susto ou medo, geralmente sem fundamento; 2. susto ou medo súbito que pode provocar uma reação descontrolada de um indivíduo ou de um grupo”. Reconheça-se que, em nossa atual conjuntura […]

Sobram os mais diversos motivos de pânico no Brasil de 2015. Pânico, como se sabe, é um substantivo masculino que o Houaiss define assim: “1. susto ou medo, geralmente sem fundamento; 2. susto ou medo súbito que pode provocar uma reação descontrolada de um indivíduo ou de um grupo”.
Reconheça-se que, em nossa atual conjuntura política e econômica, a segunda acepção tem sido mais requisitada, pois fundamentos não faltam.
A curiosidade dessa palavra é o fato de ter nascido no grego antigo como adjetivo, Panikós. Queria dizer “relativo a Pã”, isto é, ao deus das matas e da natureza, dos rebanhos e dos pastores, um deus flautista e altamente erotizado que tinha chifres e patas de bode.
Como se atribuíssem a Pã os ruídos aterrorizantes da noite dos campos, surgiu a expressão tárakhos Panikós – em tradução literal, “terror pânico”.
O pânico ainda era exclusivamente adjetivo – o que é até hoje, embora em acepção minoritária – quando em 1572 adentrou nossa língua pela mais nobre das portas: o grande texto de fundação do português moderno, o poema épico “Os Lusíadas”, de Luís de Camões.
No Canto III, Camões narra a improvável vitória militar de um punhado de portugueses ferozes contra um inimigo muito mais numeroso (“que tão pouco era o povo batizado/ que para um só cem mouros haveria”), mas frouxo, “dum pânico terror todo assombrado”.
De tanto escoltar o medo, e apenas ele, o adjetivo “pânico” acabou por se lançar em fins do século XIX em carreira solo como substantivo.