Palavra do ano: Mensalão
Compartilhe essa matéria: Link copiado! Ministro Joaquim Barbosa, o relator do processo (foto de Fellipe Sampaio/SCO/STF) O post abaixo saiu aqui no dia 4 de agosto deste ano. Seu domínio sobre todas as demais Palavras da Semana de 2012 dispensa explicações. Continua após a publicidade Como o calor do escândalo político não se compara à […]
O post abaixo saiu aqui no dia 4 de agosto deste ano. Seu domínio sobre todas as demais Palavras da Semana de 2012 dispensa explicações.
Como o calor do escândalo político não se compara à temperatura morna do rame-rame burocrático, é fácil esquecer que mensalão nasceu como uma palavra do jargão tributário antes de ganhar o sentido que está no centro do julgamento em curso no Supremo Tribunal Federal. Esta acepção infame foi gerada nos bastidores políticos de Brasília e veio à luz há pouco mais de sete anos, num dia preciso, como registrei em agosto de 2007 em artigo publicado em minha coluna na extinta “Revista da Semana” e reproduzido abaixo.
*
A entrevista do deputado Roberto Jefferson publicada pela “Folha de S. Paulo” naquela segunda-feira, 6 de junho de 2005, marcou um fato raro no mundo das palavras: o momento exato em que nascia uma nova acepção, um novo sentido. No caso, um sentido destinado a fazer tanto sucesso que hoje deixa num pálido segundo plano a acepção até então exclusiva de mensalão – “recolhimento facultativo que pode ser efetuado pelo contribuinte para antecipar o pagamento do imposto devido na Declaração de Ajuste Anual”, segundo o site da Receita Federal.
Pouco antes de Jefferson detonar sua bomba, o mensalão já circulava fora do jargão tributário, mas apenas como gíria brasiliense para um novo esquema de corrupção centrado na compra – prática antiga, mas talvez nunca tão literal – de apoio parlamentar pelo governo. Tinha feito uma breve aparição no “Jornal do Brasil” em 2004, mas faltava ganhar as ruas, a corrente principal da língua. Tudo indica que ganhou. Pouco mais de dois anos depois de nascer, a palavra acaba de ser reconduzida ao posto de grande estrela do vocabulário político pelo Supremo Tribunal Federal.
É razoável supor que a aparência bonachona contribuiu para o sucesso do termo mensalão. Fascinado pela intimidade de diminutivos e aumentativos, o português brasileiro se dá bem com ambivalências desse tipo, entre a familiaridade complacente e a rejeição irônica. O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda sabia o que estava falando quando chamou o brasileiro de “cordial” no clássico “Raízes do Brasil”. Não quis dizer, como muitos acreditam até hoje, que somos bonzinhos, e sim que tendemos a nos pautar pelo coração, pela afetividade, em nossas relações com aliados e inimigos.
Se a ambiguidade do tom é inevitável, o duplo sentido mais explícito de mensalão recomenda cuidado no uso da palavra. Vale notar que suas duas acepções se relacionam de alguma forma com o dinheiro público, mas em sentidos dramaticamente opostos: uma no momento (legítimo) da arrecadação, a outra na ponta (criminosa) da malversação.






