O lado escuro da linguagem
Compartilhe essa matéria: Link copiado! Costumamos fingir que não vemos – é incômodo demais – o lado escuro da linguagem. Nosso senso comum se satisfaz em pensar no discurso como algo cuja função é sempre positiva: informar, comunicar, revelar, desvelar. Essa boa-fé pode ser adequada a nosso bom funcionamento social, mas a verdade é que […]
Costumamos fingir que não vemos – é incômodo demais – o lado escuro da linguagem. Nosso senso comum se satisfaz em pensar no discurso como algo cuja função é sempre positiva: informar, comunicar, revelar, desvelar. Essa boa-fé pode ser adequada a nosso bom funcionamento social, mas a verdade é que não está muito distante da ingenuidade.
Quando vemos um desvio muito evidente desse princípio positivo, a reação é de revolta ou mesmo repulsa. Um político que se valha de circunlóquios intermináveis para desconversar e fugir do assunto que interessa – para, na palavra que a campanha presidencial pôs em evidência, tergiversar – merece nossa condenação. O adolescente que abusa de gírias a ponto de se tornar ininteligível merece desprezo, escândalo ou piedade. No entanto, o que esses dois personagens fazem é apenas exercitar de forma mais enfática potencialidades que estão presentes em qualquer discurso, o tempo todo.
Como num strip-tease, que teria menos graça se a nudez fosse logo escancarada, informar e desinformar, revelar e esconder são os dois lados da lua da nossa linguagem. Se ela será nova, crescente ou cheia, depende da dosagem de cada um – mas mesmo a lua perfeitamente cheia, o discurso de clareza cristalina, tem seu lado escuro em todas as palavras e ideias que seu autor deixou de fora para chegar a tal ilusão de luminosidade, a tal ocultamento da escuridão.
O falar sem dizer nada do político, projetado para nos engambelar, e o patoá do adolescente, feito para excluir otários e incluir iniciados, são as formas mais visíveis de um pecado original do qual nenhum falante pode se considerar inteiramente inocente.





