O lado escuro da linguagem
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Costumamos fingir que não vemos – é incômodo demais – o lado escuro da linguagem. Nosso senso comum se satisfaz em pensar no discurso como algo cuja função é sempre positiva: informar, comunicar, revelar, esclarecer, explicar.
Essa boa-fé pode ser adequada a nosso bom funcionamento social, mas a verdade é que não está longe da ingenuidade.
Quando vemos um desvio muito evidente de tal princípio positivo, nossa reação é de revolta ou mesmo de repulsa. Exemplo: um político que se valha de circunlóquios para desconversar e fugir do assunto que interessa – para, numa palavra que andou na moda recentemente, tergiversar – merece nossa condenação.
Da mesma forma, o adolescente que abusa de gírias a ponto de se tornar ininteligível costuma despertar reações de escândalo, desprezo ou piedade entre os que estão fora de seu círculo de sentido.
No entanto, o que esses dois personagens fazem é exercitar de forma mais enfática potencialidades que estão presentes em qualquer discurso, o tempo todo.
O falar sem dizer nada do político, projetado para nos engambelar, e o patoá do adolescente, feito para excluir otários e incluir iniciados, são as formas mais visíveis de um pecado original do qual nenhum falante pode se considerar inteiramente inocente.
Como num strip-tease, que teria menos graça se a nudez fosse logo escancarada, informar e desinformar, revelar e esconder são os dois lados da lua da linguagem.
A lua, como se sabe, pode ser nova, crescente, cheia ou minguante, num arco de sutis gradações de equilíbrio entre luz e sombra. Mas mesmo a lua perfeitamente cheia, o discurso de clareza cristalina, tem seu lado escuro em todas as palavras e ideias que o autor deixou de fora para chegar a tal ilusão de luminosidade.
A pura luminosidade da linguagem é o ocultamento engenhoso de sua inevitável escuridão.
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Uma primeira e primitiva versão desta crônica – bem mais cheia de partes escuras – foi publicada nesta coluna em novembro de 2010.





