O discreto charme da palavra inadimplência
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O salto de 8,2% na inadimplência dos consumidores brasileiros entre abril e maio é um bom pretexto para examinar uma palavra que, se no significado não tem beleza alguma, gerando angústia e insegurança, carrega em sua formação os bonitos traços de uma língua de cultura como é o português, com diversos elementos latinos se juntando como peças de Lego para formar novos sentidos.
Contribui para que tudo isso fique oculto nas palavras inadimplência e inadimplente o fato de, entre suas parentes mais próximas, elas serem as únicas que têm circulação na linguagem comum: adimplir (cumprir uma obrigação contratual) e inadimplir (deixar de cumpri-la) são termos exclusivos do vocabulário jurídico.
Ainda que não fosse assim, porém, será que atentaríamos para os laços familiares que ligam as palavras inadimplência, plenitude e, por incrível que pareça, cheio? Todas se relacionam com o verbo latino plere (“encher”) e seu adjetivo plenus (“cheio”). Ficar inadimplente é, do ponto de vista etimológico, deixar um espaço vazio, ser incapaz de encher uma medida qualquer – no caso, de dinheiro.
De implere, “completar, saciar, realizar”, fez-se ainda no latim, com o acréscimo do prefixo ad, que indica aproximação, adimplere, com o sentido de “cumprir uma obrigação, saldar uma dívida”. Depois disso foi só acrescentar mais um prefixo, este de negação, in, para chegar ao verbo que deu origem a inadimplir e, com a ajuda do sufixo -ência, formador de substantivos abstratos, à nossa palavra do dia.





