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Sobre Palavras

Por Sérgio Rodrigues Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Non sequitur

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Por Sérgio Rodrigues
1 jan 2012, 13h47 • Atualizado em 31 jul 2020, 09h50
  • – Sabe qual é o problema das suas resoluções de Ano Novo? Por que elas podem até ser cheias de boas intenções, mas acabam logo esquecidas, nunca dão em nada? – disse a mulher de roupa branca.

    – Não, mas acho que você vai me explicar – respondi com ironia, virando mais uma taça de espumante.

    – Vou sim – devolveu ela alegremente, como se pairasse em alguma região acima daquela em que rastejavam sentimentos como a malícia da minha resposta. Reparei que os outros convivas continuavam a celebrar a chegada de 2012, rodopiando à nossa volta, mas era como se uma bolha de isolamento acústico protegesse de sua animação ruidosa nossa inesperada conversa no meio do salão.

    – O problema das suas resoluções de Ano Novo – prosseguiu a mulher, dona de uma beleza atemporal que tornava difícil situar sua idade, algo entre 30 e 50, calculei – é o mesmo que enfrentam todos os narradores, escritores, contadores de histórias. O que é óbvio, pois somos todos narradores da nossa própria história, não somos? Engraçado que seja tão difícil perceber isso. O problema é o non sequitur.

    – Sei. Você é amiga da Sandrinha?

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    Non sequitur, caso você não saiba – ela foi em frente, ignorando minha interrupção – é um soluço, uma descontinuidade lógica, estilística, sintática. Como todas as narrativas, a da nossa vida também permite grandes saltos, cortes, mudanças, reviravoltas, surpresas, até mesmo revoluções e epifanias, é claro que sim. Não se trata de negar a possibilidade do novo, nunca. Só que nada disso vem de graça. Para que a história funcione, é preciso que cada salto seja longamente preparado, ainda que em segredo, abaixo da superfície do texto. O novo só pode nascer se, antes, ficarmos grávidos dele. Do contrário tudo vira chanchada, absurdo, farsa. Em outras palavras, resoluções nobres que nunca dão em nada.

    Confuso, bêbado, procurei escapar do constrangimento que me provocava aquele papo sério, tão deslocado no meio da festa, com a tentativa de afundar o nariz na alvura do pescoço da mulher, que adivinhava morno e perfumado:

    – Você é uma graça, sabia?

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    Sorridente, num drible incompreensível, ela se esquivou sem sair do lugar:

    – Mais do que isso, meu querido, sou cheia de graça. Agora preciso ir, mas lembre-se: histórias que tenham seres humanos entre seus personagens jamais excluirão lances de heroísmo, desprendimento, superação, amor, doação angelical, bondade lancinante. Da mesma forma que jamais excluirão episódios de vileza, crueldade, egoísmo, estupidez, ódio, mesquinhez, até mesmo monstruosidade. É assim desde o século 80 antes de Cristo, pelo menos. E assim continuará a ser por mais 80 séculos, se meus cálculos não falham.

    E de repente, não sei como, a mulher de branco não estava mais lá. Nem eu estava mais lá. Quando acordei, o primeiro dia do ano já ia pela metade e eu tive que correr para alcançá-lo. No banheiro, vestida só com uma das minhas camisetas, encontrei Sandrinha, que me perguntou se podia usar minha escova de dente. Non sequitur.

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