Me dá licença para falar de pronomes
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“Tenho notado um uso mais frequente de formas pronominais proclíticas nos textos escritos e nas falas do português do Brasil. Percebo também que em Portugal a língua é mais estanque. Será que já podemos escrever frases como ‘Me custa entender nosso idioma’ na norma culta?” (Marcospaulo Viana Milagres)
O leitor toca num dos pontos em que o português brasileiro mais se distingue da matriz lusitana: o emprego dos pronomes. Me espanta (opa!) perceber o escândalo que ainda hoje provoca em letrados conservadores nossa inclinação pela próclise, ou seja, por antepor pronomes pessoais oblíquos átonos ao verbo, algo que na linguagem literária se tornou lugar-comum depois que os modernistas de 1922, com seu ouvido apurado para o ritmo da fala de uma população cultural e etnicamente miscigenada, fizeram disso uma de suas bandeiras (além de terem enterrado de vez a mesóclise, poder-se-ia lembrar, mas esta é outra história).
Estamos falando de quase um século de literatura, o que não é pouco: afinal, a língua trabalhada com arte pelos escritores é a antecâmara natural entre a língua do povo, aquela que se fala nas ruas, e a chamada norma culta, que os gramáticos normativos sancionam. Convém não esquecer que a língua nasce falada para só mais tarde se tornar escrita, decorrendo deste fato singelo que a fixação da norma culta está sempre correndo atrás do bonde sem jamais alcançá-lo. Acrescente-se que essa defasagem inevitável talvez seja agravada por certa subserviência de nossos filólogos à gramática lusitana.
Se a próclise indiscriminada no meio do texto já foi, a esta altura, relativamente bem assimilada, a resistência a abrir frases com ela ainda é forte. Num jornal, essa “transgressão” pode ser encontrada com alguma facilidade em textos assinados por cronistas ou na fala de entrevistados, mas jamais no corpo propriamente noticioso. Mesmo sabendo que o tempo conspira a favor da “descriminalização” desse uso, porém, recomenda-se evitá-lo em contextos que exijam registro minimamente formal. Poupa aborrecimentos e, em caso de provas, a perda de pontos preciosos.
No mesmo campo pronominal, mas mais atual e perturbadora do que a próclise em abertura de frase, vemos hoje a crescente campanha literária pela liberação do uso de pronomes pessoais retos, sobretudo os da terceira pessoa, no papel de objetos diretos. Exemplo: em vez de escrever “traga-o aqui”, alguns jovens escritores estão escrevendo “traga ele aqui”. Como, aliás, todos nós falamos há séculos. Mas essa guerra ainda deve ter pelo menos mais um século pela frente.





