As palavras, essas fingidas
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A palavra degringolar parece ter a ver com gringo, mas não tem. A palavra coitado, muita gente repete por aí, vem de coito. Não vem. São as palavras que mentem, que enganam, ou somos nós que adoramos contar – e acreditar em – mentiras sobre elas?
Nelson Rodrigues (foto) disse que “uma simples frase nos falsifica ao infinito”, frase que, apropriadamente, carrega um miolo de verdade no meio de grossas camadas daquele exagero saboroso que ele adorava cultivar – e que não passa de mentira. “Tempestade de quinto ato de Rigoletto”, costumava dizer Nelson sempre que queria adicionar uma hipérbole retumbante aos raios e cântaros de algum temporalzinho rotineiro. A ópera “Rigoletto” nunca teve quinto ato.
Pela via da falsificação deslavada, o que Nelson buscava era a corda que, na alma do leitor, faria vibrar a impressão de uma verdade maior. Uma verdade dramática, não prosaica. Turva, próxima do inconsciente, e não racional.
Essa operação só é possível porque as palavras, mesmo as mais ponderadas e anti-rodriguianas, mentem sempre. O que faz a hipérbole do autor de “Toda nudez será castigada” é acentuar esse traço, como numa caricatura. Todo signo se funda numa suprema arbitrariedade: a de atribuir correspondência entre coisas que não têm correspondência alguma além daquela em que se convencionou acreditar.
Vejamos: o que tem a ver a árvore do reino vegetal com a palavra árvore falada ou escrita? Nada. Tudo começa com uma mentira diante da qual decidimos suspender a incredulidade, como faz o leitor de um romance ao abrir o volume, em troca dos benefícios que a linguagem oferece.
Quer dizer que, em algum nível, degringolar tem a ver com gringo e coitado, com coito? Não, aí também não. Mentira tem limite.







