É preciso salvar as Forças Armadas
O Brasil precisa das FFAA. Mas os Altos-Comandos terão a coragem de fazer o que é necessário?
Há uma mística nacional que diz que militares são uma categoria especial, à parte (e acima) dos demais brasileiros. Militares seriam naturalmente sinceros, honestos, disciplinados e íntegros, competentes em tudo, mais respeitadores da lei e da hierarquia, mais honrados e corajosos do que os civis. Os únicos verdadeiros patriotas.
Com o que estamos vendo atualmente — um general de quatro estrelas envolvido com tráfico de joias, dois ex-comandantes do Exército mencionados pelo hacker, incontáveis militares envolvidos no golpe e em esquemas de corrupção — a mística, que nunca correspondeu à realidade, tornou-se risível.
Se Bolsonaro prestou algum serviço ao Brasil, foi o de jogar um pouco de luz sobre as Forças Armadas, de longe a instituição menos transparente do país. (“Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem”, ensinava Millôr Fernandes.)
Militares não são melhores do que ninguém. Nos últimos tempos, vimos muitos militares, incluindo generais de quatro estrelas, demonstrando incrível incompetência, mentindo (inclusive em juízo), se corrompendo, se comportando como covardes (especialmente diante de CPIs), tentando intimidar parlamentares, quebrando a hierarquia e traindo a Pátria.
O Brasil tem a tradição de não punir militares. Isso precisa mudar. Ou prendemos os criminosos, incluindo eventuais generais, ou vamos contratar a próxima tentativa de golpe. E é preciso reformular os currículos das escolas militares: é lá que aprendem que estão acima dos civis, são inimputáveis e entre suas atribuições está a política.
Os Altos-Comandos felizmente não aderiram ao golpe, é verdade, mas isso não é demonstração de legalismo nem de espírito democrático: há vários motivos possíveis para não aderir a um golpe de Estado, inclusive medo.
A reação dos Altos-Comandos às acusações de que as Forças Armadas são uma instituição antidemocrática e golpista é a de que os golpistas são “elementos isolados”, “não são da ativa” e “não representam as Forças Armadas”.
Os Altos-Comandos estão em negação. Os elementos “isolados” são centenas, senão milhares — e nunca nenhum foi levado à Corte Marcial. Sempre houve muitos militares defendendo golpe, mas defendendo a democracia, só se viu um: o general Tomás Paiva.
Não existe isso de militar que é sério e profissional na ativa se transformar em golpista quando vai para a reserva. Há muitos oficiais generais comprometidos com práticas inaceitáveis de Bolsonaro que saíram dos Altos-Comandos direto para cargos no governo (ou foram mesmo antes). Que dizer dos comandantes do Exército? Villas-Bôas intimidou o Supremo, Paulo Sérgio fez campanha contra as urnas eletrônicas, Arruda se recusou a obedecer a ordem expressa.
É preciso salvar as Forças Armadas brasileiras. Os Altos-Comandos precisam parar de tapar o sol com a peneira e agir. É preciso levar à Corte Marcial os criminosos, proibir que militares da ativa ocupem cargos no governo (exceto os ligados à Defesa) e concordar em fazer alterações no currículo das escolas.
Ou fazem isso, ou as Forças vão ficar com a mesma reputação que têm várias das Polícias Militares.
A de milicianos.







