
Na semana passada, o governo apresentou um pacote para cortar gastos — e cortar receitas. Mostrou que está dividido e não sabe direito para onde quer ir. O resultado foi o desastre que se viu.
A parte do plano que corta gastos é obra da esquerda moderna, que entendeu que gastar mais do que se arrecada é ruim. No tempo, isso aumenta a dívida até que ela se torne impagável e paralise o governo. O problema gera inflação, que desorganiza a economia, pune o pobre e força o juro para cima. Uma taxa alta impede o país de crescer.
Essa é a esquerda que defende a democracia e que sabe que governar é escolher prioridades. No PT, ela se resume a uma minoria em que Fernando Haddad é o nome de destaque.
Já a esquerda tradicional acha que gastar “só um pouquinho” a mais do que se arrecada não faz mal. A turma acha que dá para fazer tudo. Afinal, o governo sempre pode emitir mais moeda. Acreditam ainda que gerar mais dívida não é tão grave, porque o governo controla (ou deveria controlar) a taxa de juro. Se aumentar a inflação, tudo bem, porque um “pouquinho de inflação não faz mal”. E, aliás, o Brasil nem deveria pagar essa dívida, cujos credores “são os bancos e os rentistas”.
É essa a parte da esquerda que diz que defende a democracia — mas, sabe como é, defende ditaduras se elas forem de esquerda. Essa gente acha que a matemática é de direita e que a facção de Haddad é neoliberal. No PT, quem pensa assim é a maioria, e sua (retumbante) porta-voz é a presidente do partido, Gleisi Hoffmann.
“Pacote para cortar gastos (e cortar receitas) mostrou que o governo está dividido e não sabe para onde ir”
Apesar de terem, em tese, o mesmo objetivo — reduzir a desigualdade, aumentar a justiça social, emancipar os pobres —, as duas esquerdas discordam sobre os meios para alcançar esses objetivos. Essa discordância inviabiliza que se chegue a um acordo (e até a um diálogo) e representa um problema monumental.
Mas a coisa fica pior. Existe uma terceira facção que não se distingue das outras apenas pelos meios, mas também pelos objetivos. É a esquerda identitária, que busca reparação para (certas) minorias historicamente oprimidas: mulheres, negros, a comunidade LGBTQIA+ e indígenas. Seus métodos são o cancelamento, o patrulhamento, a censura, a humilhação, a interdição do debate (eventualmente, identitários brigam até entre si, como vimos no conflito Anielle Franco versus Silvio Almeida).
É a esquerda que diz que defende a democracia, mas se vale de métodos profundamente antidemocráticos e, no fundo, acha que a democracia é uma empulhação para manter as minorias para sempre oprimidas. Ela não se interessa por economia, nem pela gestão do Estado, nem sequer por ganhar eleição. Parece querer apenas ter razão. Ganhar uma guerra cultural. Ou achar que ganhou.
Essa fragmentação na esquerda não é nova, mas a vitória de Lula, que precisou abarcar as três facções em seu governo, escancarou as contradições a aprofundou a hostilidade entre as correntes. Essa esquerda tripartida acredita que, quando chegar 2026, vai se unir, atrair as forças de centro de cujo apoio precisa, comunicar-se com o eleitorado e conseguir os votos necessários para a vitória.
Otimismo é isso aí.
Publicado em VEJA de 6 de dezembro de 2024, edição nº 2922