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Ricardo Rangel

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1964 e um erro histórico de Lula

Para não desagradar os militares, o presidente evita o assunto sobre o qual mais precisamos falar.

Por Ricardo Rangel Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 1 abr 2024, 10h52 | Atualizado em 9 Maio 2024, 12h47
1964 e um erro histórico de Lula Priorizar nos meus resultados Google

“Eu estou mais preocupado com o golpe de 8 de janeiro de 2023 do que com 64. (…) Eu não vou ficar remoendo e eu vou tentar tocar esse país para frente”, disse Lula. E proibiu em seu governo qualquer menção ao golpe de 1964.

Faz 60 anos exatos que o governo de João Goulart foi interrompido.

O governo havia sido eleito democraticamente, não era comunista e tinha apoio popular. Mas era um governo caótico e, ainda que não houvesse perigo real de comunismo, havia medo do comunismo. A derrubada de Jango foi apoiada por muita gente, incluindo a totalidade das Forças Armadas, a grande imprensa, a classe média urbana em peso e boa parte dos liberais.

Muitos mitos foram criados para justificar a intervenção.

“Foi uma revolução”. Nasceu dentro do Estado, foi desfechada pelo conjunto das Forças Armadas com apoio de setores do Congresso, não teve o apoio do conjunto da sociedade nem povo na rua, não fez mudanças estruturais. Claro que foi golpe.

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“O movimento salvou a democracia”. “A história não se apaga e nem se reescreve, em 31 de março de 1964 a Nação se salvou a si mesma!”, escreveu no domingo o general Hamilton Mourão, numa tentativa de apagar e reescrever a história. O que a história (escrita e indelével) mostra é que o golpe militar matou a democracia.

“Não foi ditadura”. Não havia eleições, o presidente era um general escolhido por outros generais. O governo perseguia, torturava, exilava e matava seus adversários. Havia censura prévia à imprensa e às artes. O presidente legislava por decreto e o Congresso só podia aprovar leis que o governo aprovasse. Greves eram proibidas. Claro que foi ditadura.

“A economia ia bem”. O “milagre brasileiro” dos anos 1970, com suas obras farônicas, foi financiado por endividamento irresponsável e arrocho salarial. A ditadura chegou ao fim com inflação anual de 250% e salário mínimo valendo a metade.

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“Só os comunistas foram prejudicados”. Ideia duplamente estranha. Primeiro, porque (leia acima) é obviamente falsa. Segundo, porque sugere que é legítimo torturar e matar comunistas.

“Não havia corrupção”. Só se for nos jornais, que eram censurados. Mas quando a censura foi suspensa, começaram a surgir os (muitos) escândalos.

Essas mentiras não são novas, mas, desde o fim da ditadura, nunca se acreditou tanto nelas.

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Lula não se incomoda de falar do passado quando é para comparar Israel com Hitler, mas proíbe que se fale de um passado mais próximo e mais recente — e mais vivo do que nunca.

Lula quer “tocar o país para frente” sem olhar o que ficou para trás. Só que 1964 não ficou para trás: o 31 de março e o 8 de janeiro são a mesma coisa, feita pelo mesmo grupo, pelos mesmos motivos e com os mesmos objetivos.

“O passado nunca morre. Não é sequer passado”, ensinou o escritor americano William Faulkner.

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Precisamos falar de 1964 pelo mesmo motivo que precisamos falar do Holocausto: para garantir que não aconteçerá de novo. Para garantir que haverá futuro.

Oito (infelizmente não foram mais) ministros de Estado falaram do golpe militar.

Lula proibiu menção ao assunto e ficou calado.

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Perdeu uma oportunidade histórica.

(Por Ricardo Rangel em 01/04/2024)

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