UMA TRILHA SONORA PARA A VOLTA DE DELÚBIO
(leia primeiro o post abaixo)Ao fazer suco da tese do Pomar nesta madrugada, afirmei que devemos todos torcer pela volta de Delúbio Soares ao PT porque ele é um emblema da real natureza do partido. Ora, se o chefe imediato de Delúbio, José Dirceu, continua no partido, por que não o tesoureiro e sua moral […]
Ao fazer suco da tese do Pomar nesta madrugada, afirmei que devemos todos torcer pela volta de Delúbio Soares ao PT porque ele é um emblema da real natureza do partido. Ora, se o chefe imediato de Delúbio, José Dirceu, continua no partido, por que não o tesoureiro e sua moral não-contabilizada? Se Lula, seu chefe último nesta nova classe social que é a burguesia do capital alheio, continua no partido, por que não o seu colega de CUT? Se fica quem faz o mais, por que não pode ficar quem faz o menos, não é mesmo?
Os leitores até estão sugerindo a trilha sonora do retorno. De Lupicínio Rodrigues, temos “Volta”. Nesse caso, o “eu-lírico”, como se fala no complexo PUCUSP, é quem recebe o amante que se perdeu em prodigalidades. Quem poderia ser o intérprete? Lula? Zé Dirceu? Berzoini? Maria Victoria Benevidades? Marilena Chaui?
Quantas noites não durmo
A rolar-me na cama
A sentir tanta coisa
Que a gente não pode explicar
Quando ama…
(…)
Volta!
Vem viver outra vez a meu lado
Não consigo dormir sem teu braço
Pois meu corpo está acostumado
Mal acostumado…
Mas também podemos recorrer à dupla Roberto e Erasmo, com “Portão”. Nesse caso, o registro é em primeira pessoa. O “eu-lírico” seria o próprio Delúbio. Imaginem quantos cachorros não “sorririam latindo”, para abusar dessa imagem inesquecível da MPB:
Eu cheguei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo
Minhas malas coloquei no chão, eu voltei
Tudo estava igual como era antes, quase nada se modificou
Acho que só eu mesmo mudei, eu voltei
Eu voltei, agora pra ficar, porque aqui, aqui é o meu lugar
Eu voltei pras coisas que eu deixei, eu voltei
Fui abrindo a porta devagar, mas deixei a luz entrar primeiro
Todo meu passado iluminei, e entrei
Meu retrato ainda na parede, meio amarelado pelo tempo
Como a perguntar por onde andei e eu falei
Onde andei não deu para ficar, porque aqui, aqui é o meu lugar.
Mas o PT pode acabar rejeitando o pedido de Delúbio, né? “Nada disso, companheiro. Volta oficial, nem pensar. Como diz o Pomar, isso daria munição à direita. Fica assim como está: na paralela”. E aí penso em Delúbio ressentido, descabelado, rivalizando com a própria Maria Bethania no tom dramático, cantando para Lula:
Ele é casado!
E eu sou a outra que o mundo difama!
Que a vida, ingrata, maltrata e, sem dó, cobre de lama.
Quem me condena
como se condena uma mulher perdida
só me vê na vida dele, mas não o vê na minha vida…
Também para a hipótese do ressentimento, há uma outra bela sugestão, esta de Ataulfo Alves. Com aquele desconsolo que caracterizava Dalva de Oliveira, Delúbio encara o Apedeuta:
Errei, sim
Manchei o teu nome
Mas foste tu mesmo o culpado
(…)
Lembro-te agora
Que não é só casa e comida
Que prende por toda vida
O coração de uma mulher
As jóias que me davas
Não tinham nenhum valor
Se o mais caro me negavas
É isso aí. Delúbio não quer apenas casa e comida. Ele também quer prestígio de petista oficial, não de petista, digamos, “concubino”.





