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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Um filme de Szabó e merda para Paulo Betti!

Klaus Maria Brandauer (c) no papel de Mefisto, o sedutor; à esq., o ministro da Cultura nazista. Ele aceitou o papel de palhaço do novo poder O ator Paulo Betti escreve nesta terça, na Folha, um texto intitulado “A ética hipocrisia” (Clique aqui para ler). Ele tenta se defender de supostos ataques de que estaria […]

Por Reinaldo Azevedo 5 set 2006, 20h58 | Atualizado em 6 jun 2024, 09h02
Um filme de Szabó e merda para Paulo Betti! Priorizar nos meus resultados Google
Um filme de Szabó e merda para Paulo Betti! Klaus Maria Brandauer (c) no papel de Mefisto, o sedutor; à esq., o ministro da Cultura nazista. Ele aceitou o papel de palhaço do novo poder
O ator Paulo Betti escreve nesta terça, na Folha, um texto intitulado “A ética hipocrisia” (Clique aqui para ler). Ele tenta se defender de supostos ataques de que estaria sendo vítima e acaba enfiando ainda mais a mão na merda. Não sei quem escreveu o artigo para ele. Andou muito mal quem o fez. É quase sempre decepcionante quando um ator, um músico ou um cineasta (uso o masculino porque genérico, mas vale todos os gêneros…) falam. Em períodos de normalidade democrática, a voz de um ator deveria ser a de suas personagens; a de um músico, a de sua música. E assim por diante. Por que eles precisam filosofar também? Bem, adiante, com uma pausa com uma dica cultural — sempre ressaltado que Betti não decepciona…

Quem não viu deve ir à locadora mais próxima e alugar um filme extraordinário chamado Mephisto, dirigido pelo cineasta húngaro István Szabó. Trata-se da história real de um ator (Gustaf Gründjens) da Alemanha pré-nazista que representa de forma soberba a personagem Mefistófeles, da obra Fausto, de Goethe. Com o golpe nazista, Gustaf, que circula no meio teatral berlinense, majoritariamente antinazista, cai nas graças do ministro da Cultura e vai sendo, pouco a pouco, cooptado pelo regime.

O paralelo é óbvio, mas Szabó o torna soberbo: assim como o diabo seduz Fausto, o Mal seduz o ator, até que ele se torna um deles. Numa das frases emblemáticas do filme, depois de um encontro clandestino com uma ex-namorada, que está na resistência, e de ser severamente cobrado por sua adesão ao nazismo, o ator indaga, antes de descer uma escadaria e entrar, literalmente, num túnel: “Liberdade para quê?”

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O filme é premiadíssimo. E é um desses raros casos de merecimento. Enquanto o ator, representado de forma impecável por Klaus Maria Brandauer, vai-se tornando um deles, vamos sendo apresentados à estética nazista, a versão alemã do realismo socialista. No caso nazi, tratava-se de uma espécie de realismo naturalista, uma volta às origens bucólicas de uma Alemanha sem pecados, sem sujeira, sem estrangeiros, sem poluição, sem nada. Neoclassicizante. O resto era considerado decadência. Os nazistas foram os primeiros ecologistas do mundo em larga escala…

Vejam o filme. Ele se baseia no livro homônimo de Klaus Mann (Mefisto, com tradução em português, só não sei se em catálogo), um dos filhos de Thomas. Gustaf, o real, era seu cunhado (casado com Erika, sua irmã) e também seu amante. Confusão das boas. A família Mann fugiu do nazismo, e Gustaf foi seu fiel servidor. Homossexual mal resolvido, Klaus mantinha com o pai uma relação tumultuada, o que se revela em cartas — parecia, ademais, esmagado pelo importância da figura paterna — e acaba se matando em 1949, aos 42 anos.

Desculpem-me a digressão. Volto a Paulo Betti, inferior, é claro, a toda essa gente. Às vezes, apelo a certos emblemas apenas para deixar clara a natureza do que está sendo tratado. O filme, muito melhor do que o livro, dá conta dos muitos encantos que o poder exerce sobre as pessoas, mormente sobre um ator, que seria outra coisa na vida não fosse a sua vaidade e a coragem de ser quem não é, ainda que por um breve tempo. E há, claro, no que respeita à dinâmica material do mundo, as facilidades que o poder oferece. Betti faz de conta que lida com categorias puras. Conversa! O Estado brasileiro, especialmente por meio das estatais, é o grande patrão da cultura brasileira. Por essa razão, produtores de cinema, por exemplo, o defendem com unhas e dentes. A Petrobras produz mais metáforas cinematográficas do que petróleo…

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Paulo Betti tenta emprestar grandeza à sua filosofada e nos conclama a deixar de ser hipócritas. À maneira de Gustaf, pergunta: “Ética para quê?”. Ele nos convida, como o outro, a ser práticos. Sua glossolalia não difere da sem-vergonhice petista: o PT errou porque acabou fazendo o que todos os outros fizeram. E não se dá conta da cilada — porque quem escreveu o texto deve ser, além de imoral, um tanto burro: o partido só fez assim porque, de outro modo, não seria possível implementar suas mudanças. Ora, tal impossibilidade, então, a outros também estava dada. Logo, de onde advém a diferença, que tornaria o PT especialmente talhado para nos trazer um novo amanhecer? Num dado momento, diz o homem: “O PT caiu nesse antigo alçapão. Nem por isso se deve negar o direito da maioria dos eleitores de reeleger o presidente.” E quem está negando esse “direito”, meu senhor? A questão é outra: poderiam as instituições ter mantido o direito de Lula de se recandidatar? Não se a Constituição tivesse sido evocada a tempo.

Betti acusa ainda oportunismo. É mesmo uma coisa muito feia… Vejam só o que a Folha de S. Paulo noticiava no dia 14 de julho de 2001 (uma das coisas de que me orgulho, Betti, é de minha memória):

“Militante devotado do Partido dos Trabalhadores desde os anos 80, o ator e diretor Paulo Betti, 48, admite votar no candidato tucano à sucessão do presidente Fernando Henrique Cardoso. Sem constrangimento aparente, Betti integrou a comitiva presidencial que ontem visitou a metalúrgica Bardella, em Sorocaba, cidade natal do ator. Betti, que capta recursos para rodar o filme “João de Camargo”, foi convidado pelo cerimonial do Palácio do Planalto.

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Nas últimas três eleições presidenciais, o ator declarou apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas descartou um quarto voto no petista. “Nunca lhe neguei voto, mas Lula jamais foi assistir a uma peça minha”, afirmou. FHC também nunca o prestigiou, mas o ator considera-o mais interessado em cultura do que o presidente de honra do PT. “Com Fernando Henrique posso conversar sobre literatura, antropologia e sociologia. É chato falar com quem só se interessa por futebol”, disse.

Para Betti, ter defendido o PT na televisão durante 17 anos dificulta a captação de recursos “na Fiesp [Federação das Indústrias do Estado de São Paulo]”. O ator já conseguiu metade dos R$ 5 milhões necessários para financiar o filme. A maior parte da verba veio dos cofres públicos. Correios, BR Distribuidora e Eletrobrás são os maiores contribuintes. A empresa Iharabrás, fabricante de defensivos agrícolas com sede em Sorocaba, contribuiu com R$ 100 mil.

“Outra boa fonte são as pessoas físicas que têm doado em média R$ 500″, disse. Até esse valor, as doações podem ser abatidas do Imposto de Renda. Pela Lei Rouanet, de incentivo ao audiovisual, Betti tem de terminar a captação de recursos até o fim do ano. O início das gravações está previsto para maio de 2002.

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Apresentado a FHC pelo ministro da Saúde, José Serra, Betti disse que jamais faria campanha política por dinheiro. “Só por ideologia”, afirmou.”

Dou um conselho a Paulo Betti: fechar a boca. E, como se diz no teatro, digo ao ator, em sentido amplo: “Merda pra você!”

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