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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

SOBRE GRANDES TEMAS E PEQUENAS COVARDIAS

Escrevi aqui um texto bastante crítico sobre o que considero a patacoada da reforma política, que pretende instituir o financiamento público de campanha e o voto em lista, e relatei uma conversa real com um motorista de táxi, segundo quem isso é coisa de “sem-vergonhas” e não vai impedir a tramóia de quem já faz […]

Por Reinaldo Azevedo 11 Maio 2009, 05h55 • Atualizado em 5 jun 2024, 18h33
  • Escrevi aqui um texto bastante crítico sobre o que considero a patacoada da reforma política, que pretende instituir o financiamento público de campanha e o voto em lista, e relatei uma conversa real com um motorista de táxi, segundo quem isso é coisa de “sem-vergonhas” e não vai impedir a tramóia de quem já faz tramóia no atual sistema. Não é que um habitual porta-voz informal de Franklin Martins na imprensa (e, pois, de Lula), disfarçado há tempos de jornalista independente, resolveu fazer referência ao meu texto — sem me citar, claro — atribuindo-o à “demofobia”?

    Sim, refiro-me a Kennedy Alencar, cujo nome não freqüenta há tempos este blog — veto-o até em comentários — porque, quando tenho alguma pendenga com o que ele escreve, prefiro me referir diretamente a seu chefe espiritual. O tal texto, que me foi enviado por leitores, foi publicado na Folha Online. Kennedy não sabe, entre as muitas coisas que ignora, o que é “demofobia”. Pelo visto, continua hostil aos livros. Poderia ter recorrido ao dicionário. Se fosse o caso — SE FOSSE, MAS NÃO É —, minha historinha (nem era a parte argumentativa do texto) seria um caso de DEMOFILIA, de alinhamento com o muito provável sentimento popular de rejeição ao financiamento público, não de DEMOFOBIA. Em seguida, ele faz a defesa do governo Lula e desqualifica os seus críticos. Kennedy já foi assessor de imprensa do PT de carteira assinada mesmo. Mudou de empresa, mas não de profissão.

    É curioso que ele tenha resolvido me atacar, abstendo-se de combater editorial do jornal em que trabalha. Poderia, ainda, se quisesse, ter criticado Elio Gaspari, colunista da Folha, crítico severo do voto em lista. Mas decidiu me agredir, tachando-me de “demofóbico”. Kennedy é tão bom no que faz que, certa feita, conseguiu saber o resultado de uma sentença judicial contra um jornalista de quem tem a pretensão de ser inimigo antes mesmo de ela ter sido oficialmente redigida. Uma das partes do processo era… Franklin Martins! Um prodígio! Flagrado, alegou que é um profissional com muitas fontes. Mentira! A fonte de Kennedy é uma só: Franklin. Sempre Franklin.

    Não custa lembrar trechos (em azul) do editorial da Folha sobre a reforma, cujo título é “A lei dos descarados”, muito mais duro, diga-se, do que o meu:

    A provocação é de tal ordem que se chega a suspeitar de algum surto de insanidade coletiva. A simples falta de compostura, o hábito de legislar em causa própria, o desapreço pela opinião pública não são suficientes para explicar as articulações em curso no Congresso a fim de aprovar os dois pontos mais acintosos do projeto de reforma política elaborado pelo governo Lula.
    Trata-se de impedir que o eleitor escolha nominalmente seus candidatos a deputado federal, deputado estadual e vereador e ainda exigir que o contribuinte pague pelos gastos da propaganda eleitoral. A proposta de “lista fechada” nas eleições proporcionais e de financiamento público de campanhas, apresentada pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, encontra apoio não só de governistas, mas também de amplos setores da oposição.
    (…)
    É de duvidar que até mesmo os maiores entusiastas da proposta possam sustentá-la, num debate cara a cara, com qualquer cidadão que, por acaso, os encontre num saguão de aeroporto -ou, quem sabe, no caso dos mais afortunados, num restaurante em Roma ou num shopping center em Miami.
    Não contentes com a seqüência devastadora de escândalos que atinge o Poder Legislativo brasileiro, pretende-se retirar do eleitor uma das poucas armas que lhe restam para combater os abusos protagonizados pelos seus representantes.

    Eis aí. Kennedy talvez ambicionasse levar aqui umas pancadas porque isso o qualifica como uma cara bacana entre os petralhas que o têm como referência. É isso aí, petralhas! Kennedy é um cara batuta. Até admito que, na categoria dos tocadores de tuba, ele está entre os de melhor embocadura. Perto do Mão Peluda e do Anão da Bota Cor-de-Rosa, é um verdadeiro Schopenhauer do governismo. E isso não deixa de ser um elogio. O desejo de chamar a atenção é uma das explicações que tenho para o fato de ignorar o que seu próprio jornal escreve a respeito para se referir ao meu texto não com o propósito de combatê-lo, o que é do jogo, mas de agredir o autor. Ou, então, Kennedy só me usou como pretexto para, seguindo os passos de Franklin Martins, desqualificar a própria Folha, que se tornou o alvo da vez do Ministro da Verdade. Parece que Kennedy é do tipo que pretende ter uma agenda própria — própria, mas compartilhada, como se sabe…

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    O tal deputado Sérgio das Couves (como é mesmo o nome do cara?) não pode dizer, mas eu posso: ESTOU ME LIXANDO PARA O QUE O POVO ACHA. Nem odeio nem amo. Alertei, com o meu exemplo do taxista, para o crescente valo que se abre entre o Congresso e a população. E isso é péssimo para a democracia porque corresponde à anulação de um dos Poderes da República. Ademais, parte da argumentação empregada por Kennedy Alencar estava no meu próprio texto: já há, hoje, financiamento público por meio da verba partidária e dos horários eleitoral e político gratuitos. Eu me oponho a que se amplie em R$ 1 bilhão essa verba; ele é favorável. Eu acho que, agora, na forma dada, o voto em lista é ruim para o Brasil; ele acha que pode ser bom. E ambas as posições são defensáveis. Mas ele escolheu o caminho da ofensa. Ok.

    VEJA e voto distrital misto
    Ah, sim: é inútil meter a VEJA no rolo. Quem está respondendo à agressão sou eu, não a revista, que não vai se dar a essas miudezas. Assim como fui atacado por Kennedy, não pela Folha. Tenho as minhas próprias posições e contraposições, e VEJA não responde por elas. É possível que não concordemos em relação à reforma. Na Carta ao Leitor desta semana, por exemplo, lê-se: “Nos projetos de reforma política ora em exame no Congresso, existe a proposta de proibir as doações de empresários, que alimentam os caixas dois, e estabelecer o financiamento público como o único recurso financeiro para partidos e candidatos. Os mais céticos acreditam que os beneficiados não vão usar esse dinheiro honestamente e ainda continuarão a receber doações por fora. Pode ser. Mas é urgente encontrar uma forma de curar essa chaga que está na base de praticamente todos os escândalos recentes da política nacional.” Como se vê, estamos inteiramente de acordo sobre a necessidade de encontrar uma “forma de curar a chaga das doações por fora”, mas, parece-me, VEJA pode ver com simpatia o financiamento público.

    Certamente voltarei ao tema da reforma eleitoral para esclarecer ângulos do debate, fora dessa abordagem bandoleira de abandonar o “quê” para debater o “quem”. Ora, é evidente que o sistema que aí está não é imune à ilegalidade, mas o outro também não, a menos que alguém me diga o que pode impedir o caixa dois de campanha mesmo com o financiamento público. E alguém certamente se lembrará de dizer: “Uma lei mais ágil e mais rígida punindo quem cometer ilegalidades”. Aí será preciso dizer por que não podemos, hoje, ter “uma lei mais ágil e mais rígida”.

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    Kennedy está defendendo agora o voto distrital misto? Pfuiii… Chegou tarde. No blog, defendi a tese em 3 de outubro de 2006 — explico lá o modelo e digo por que, talvez, seja melhor mesmo o distrital puro. Na revista Primeira Leitura, muito antes. Faz tempo que não estou satisfeito com o atual modelo. MAS NÃO SE FAZ REFORMA ELEITORAL COMO PANACÉIA. NÃO SE FAZ REFORMA ELEITORAL COMO RESPOSTA PARA DESCALABROS QUE SÃO DE OUTRA NATUREZA, emitindo aos eleitores sinais que mais vão confundir do que esclarecer.

    Ademais, o assessor está mal informado (na hipótese benigna) e confunde os seus eventuais leitores. A atual proposta de reforma não contempla voto distrital misto porcaria nenhuma, o que requereria emenda constitucional e, pois, duas votações na Câmara e duas no Senado, com três quintos das duas Casas.

    O bobalhão finge acreditar (sim, ele finge: não é tão tonto; trata-se apenas de proselitismo ideológico rombudo) que tudo se resume a uma disputa entre os que têm medo do povo e os que não têm — e ele, claro, estaria entre os que não têm. Restaria, agora, provar, então, que financiamento público e voto em lista aproximam ainda mais o povo do poder e do Parlamento.

    PS: Ah, sim: não vou patrulhar o comentário de ninguém (só os dos petralhas, que não patrulho, excluo), mas adoraria se vocês pudessem deixar Kennedy de lado para debater a reforma. Até porque não pretendo voltar a esse cara, a menos que seja necessário. E, como vocês sabem, não fico convocando ajuda para as minhas brigas. Cuidem de assuntos mais elevados.

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