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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

SERRA E AS MITOLOGIAS POLÍTICAS

Falarei aqui do resultado da convenção do PSDB em São Paulo, que oficializou a candidatura de Geraldo Alckmin, mas terei de tratar, primeiro, de algumas questões de fundo. O texto ficará um tanto longo, mas acho que pode ser útil. O político José Serra é perseguido por um mito — ou já uma mitologia: a […]

Por Reinaldo Azevedo 23 jun 2008, 06h33 • Atualizado em 31 jul 2020, 19h19
  • Falarei aqui do resultado da convenção do PSDB em São Paulo, que oficializou a candidatura de Geraldo Alckmin, mas terei de tratar, primeiro, de algumas questões de fundo. O texto ficará um tanto longo, mas acho que pode ser útil.

    O político José Serra é perseguido por um mito — ou já uma mitologia: a de que ele sempre está, como vou dizer?, “operando”. Nada do que acontece com ele ou à sua volta pode nascer do acaso, das circunstâncias ou da vontade de terceiros: se Serra está no meio, ou se a questão lhe diz respeito ainda que lateralmente, ele é logo tratado como autor do enredo. Trata-se de uma avaliação ambígua, que mistura admiração e receio. Admira-se, certamente, aquele a quem se atribui capacidade de articulação — ou de conspiração; cada um lê segundo o seu interesse esse suposto aporte racional. Mas essa característica, real ou imaginária, também desperta receio: a tendência é que perguntemos, diante de personalidades assim, quais são as suas reais intenções. As pessoas temem estar sendo administradas.

    É claro que isso é uma construção, pela qual o jornalismo político em boa parte responde. Já conversei com pessoas que o idolatram, que o tratam como o que é na vida pública — um político — e que também o detestam. A ninguém ocorre dizer, no entanto, que ele é burro ou simplório. Gente que parece estar pensando e calculado o tempo todo desperta temores. Já citei aqui, em outra ocasião, um trecho da peça Júlio César, de Shakespeare. Ele reclama de Cássio — no drama, o sujeito é mesmo um conspirador. César não gosta dele: é muito magro, está sempre pensando. O ditador pede que fiquem a seu redor apenas homens gordos, com aparência sossegada. Parece banal, mas e fato: se Serra engordasse uns 10 quilos, tenderiam a achá-lo uma cara mais afável.

    O jornalismo político já estabeleceu um contraponto imaginário para o “Serra-sempre-pensando”: é o “Aécio-sempre-se-divertindo”. Peguem o caso recente do jogo da Seleção Brasileira. O governador armou em Belo Horizonte uma festa para 400 talheres midiáticos. Futebol, política, showbizz e mundanidade se misturaram por lá, e tudo pareceu muito razoável. Outro político, em seu lugar, teria apanhado de dar dó. Aécio seria, assim, uma personalidade mais dionisíaca, em contraste com um Serra — e sempre falo aqui de personalidades — mais apolíneo. Isso tudo para afirmar o óbvio. Mitologias são o que são: construções que se agregam à realidade com a pretensão de explicá-la e que acabam por distorcê-la. Lula é amplamente beneficiado por uma dessas falsas construções — e muitos queridos leitores deste blog incorrem também no que considero um erro.

    Explico-me: o Apedeuta — iletrado não é sinônimo de burro — é visto como um intuitivo, imagem que ele gosta de cultivar, e não como um dos políticos mais frios e calculistas da safra pós-regime militar. Lula foi treinado numa escola importante: a da militância sindical. Para usar um clichê: não dá ponto sem nó. Mas ele próprio alimenta a mentira de que é dado a iluminações, a insights. Em vez de mestre político da escola sindical, prefere ser o “filho de Dona Lindu”, aquela que nasceu analfabeta. Farão até um filme cujo título é isso que vai entre aspas. Barretão, o produtor, poderia sugerir que, no dia do nascimento do herói, uma estrela — “estrela”, entenderam? — surgiu no céu. O diretor deveria cercar o bercinho pobre do “menino”, lá em Garanhuns, de alguns caboclos de mãos calosas, mas de grande majestade telúrica…

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    Sou tentado a avançar nessas considerações, que, entendo, tornam a política bem mais interessante, porque a gente chama o aporte de outras disciplinas e não precisa ficar tratando, sei lá, do pensamento profundo de Silvio Torres, por exemplo. Mas o meu ofício, por enquanto, é falar de política. Então falo. Adiante.

    Serra é o pai da candidatura Kassab?A cobertura política, com raras exceções, vendeu o tempo todo para a opinião pública uma inverdade clamorosa: a de que a candidatura de Gilberto Kassab foi uma criação de José Serra. E, se era, então ele poderia manipulá-la à vontade. Isso nunca foi verdade de várias maneiras combinadas. Em primeiro lugar porque Kassab, em 2004, foi o vice que o então governador, Geraldo Alckmin, arrumou para ele. E havia naquilo uma dose de cálculo. Serra eleito, um vice sem tradição no Executivo e, de fato, desconhecido do grande eleitorado o obrigaria a ficar na Prefeitura, impedindo-o de disputar com Alckmin a vaga tucana para disputar a Presidência.

    Em segundo lugar, mas não menos importante, essa leitura subestimou a atuação e a habilidade do atual prefeito, que sempre transitou muito bem nos bastidores da política e era um medalhão do PFL, condição que conserva no atual DEM. Portanto, a suposição de que fosse apenas um instrumento na mão de Serra — e lembrem-se de que foi o vice que arrumaram ao então candidato a prefeito, não o que ele escolheu — era absolutamente falsa.

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    Em terceiro lugar, Serra só disputou o governo de São Paulo em 2006 — contrariando a militância dos alckmistas, como sabemos — porque transformou a continuidade da gestão que iniciara na Prefeitura num pacto político com a cidade e com o seu eleitorado. Prometeu solenemente que não haveria mudança de rumo — e não houve: a gestão Kassab é, de fato, uma gestão, antes de mais nada, tucana. E, para surpresa de muitos, a solução deu certo: o prefeito tem ótimos índices de aprovação, embora eles se traduzam, por enquanto, apenas parcialmente em intenções de voto.

    O cenário óbvio e o cenário real
    Assim, a candidatura Kassab não nasce de nenhum maquiavelismo de Serra — ou do próprio prefeito. Ora, o natural sempre foi que o prefeito disputasse a reeleição, não é mesmo? É um imperativo da lógica política, e não da vontade deste ou daquele. Afinal, Kassab estaria — e estará — levando adiante teses e bandeiras que também são do PSDB paulistano.

    Contra a lógica do processo — e, nesse estrito sentido, antinatural — era e é o pleito de Geraldo Alckmin. Afinal, ele decidiu disputar uma eleição contra a gestão de seu próprio partido. Para tanto, seus prosélitos resolveram criar dois PSDBs: o que está na administração da Prefeitura e o que não está. A expressão “tucanos do holerite” é uma invenção dos alckmistas. Nessa circunstância, esperava-se que Serra fizesse o quê? Será que é preciso ser muito calculista e estar apenas de olho em 2010 para supor que a lógica do processo — e não a sua escolha pessoal — o empurrava para o flerte com a candidatura Kassab? Afinal, conforme foi pactuado com a cidade, não deixa de ser a sua gestão à frente da Prefeitura que estará também em julgamento.

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    Mas Alckmin tem o seu jeito de ser obstinado e fiel. Em 2002, já com a derrota certa para Lula, Serra teve de fazer o comício do encerramento de sua candidatura no Rio. Em São Paulo, Geraldo Alckmin não quis colar a sua imagem à de um derrotado nas urnas. Em 2006, embora o agora governador liderasse com folga a pesquisa entre os tucanos, vimos um Alckmin a defender que os números refletiam só recall. E ameaçou o partido com um racha — chegou-se a falar em fazer uma convenção: ora, qualquer um que a vencesse, depois do desgaste, levaria como prêmio um partido dividido, divisão que poderia ocorrer agora — e que, vejam só, Serra, de fato, evitou. Assim como a evitou em 2006: desistiu da disputa.

    E por que Alckmin resistiu ao que parecia — e é mesmo — o mais óbvio: guardar-se para disputar o governo de São Paulo em 2010? Porque ele nunca esteve engajado (já falo de suas entrevistas recentes) no, digamos assim, “projeto Serra”. No terreno das especulações políticas, seu interlocutor, nesse tempo, foi Aécio Neves — aquele que, por enquanto, dará apoio informal a uma candidatura do PSB-PT em Belo Horizonte. Não estando certo de que o atual governador disputará a Presidência e nem tendo disposição de atuar para que isso venha a acontecer, teme que Serra seja levado a disputar a reeleição, o que o deixaria sem alternativas: no máximo, o Senado.

    Ora vejam…
    Então vejam que coisa interessante: Alckmin cobrava de Serra o apoio a um pleito que, na prática, era contrário à gestão serrista na Prefeitura e que traduzia a sua pouca disposição pessoal para fazer do outro candidato à Presidência. Ou dito de outro modo: o apoio que Alckmin esperava de Serra correspondia a uma declaração: “Eu não apóio Serra”. Convenham: o governador nem precisa ser versado em literatura política florentina para resistir a uma proposta dessas, não? Ela era essencialmente indecorosa.

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    E há mais uma questão importante nisso tudo: a resistência que se armou no próprio tucanato, tendo os vereadores como os principais articuladores, sempre dependeu menos da vontade e da interferência de Serra do que se noticiou. Claro, ele poderia ter-se encarregado de detoná-la com a determinação, vamos dizer, de um Silvio Torres. Mas por que o faria? Releiam o parágrafo anterior. Houve um apelo ontem, com tinturas quase dramáticas, do governador em nome da unidade do partido? Houve, sim. E acabou sendo atendido. Será que o processo todo foi apenas desgastante, sem nada de útil?

    Acho que não. Melhor, para os tucanos, do que o PSDB não ter candidato nenhum será, então, ter dois candidatos — já que, reitero, a gestão em nome da qual Kassab fala é, sim, majoritariamente tucana. E está dado que Alckmin terá de falar de um futuro a partir de realização de seu adversário de pleito, mas aliado de… governo! Serra deixará claro que, dadas as circunstâncias, seu candidato é o do seu partido. Mas ele será visto, ainda que em vídeo, inaugurando obra ao lado do atual prefeito.

    Estou, em suma, afirmando aqui que tal situação não decorre de cálculos, maquiavelismos, grandes maquinações. Nada disso. Havia uma lógica, de uma transparência até aborrecida, que foi atropelada pelo grupo de Alckmin — que esperou até a undécima hora para declarar que, bem, quer o apoio de Serra, precisa dele e está com ele em futuras disputas — ou seja: a Presidência da República.

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    Agora é preciso esperar o início da campanha para ver se os tucanos não darão tiro nas próprias asas atirando contra o adversário-aliado Gilberto Kassab. Prometi ontem que falaria de uma grande mentira do horário político do PT. Farei no texto abaixo. Este já foi muito longe.

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