Os boçais. E o Simão Bacamarte da PF
A boçalidade tomou conta do debate público, especialmente nas questões relativas à lei e à Justiça. Daniel Dantas cometeu os crimes de que é acusado? Que apodreça na cadeia se for condenado — mas isso terá de ser feito de acordo com a lei. E nem vou entrar no mérito se seus direitos foram ou […]
O inquérito produzido pelo sr. Prtógenes Queiroz é uma peça delirante. Seus métodos são exóticos; suas teorias, conspiratórias e amalucadas; seu discurso público, um misto de vocação messiânica e egomania. Como escrevi aqui desde o primeiro dia, se Dantas for um décimo do que dizem dele seus inimigos, deve estar rindo de orelha a orelha: o modo Protogenes de fazer as coisas lhe é útil porque é incompetente. E Dantas tende a escapar. Seus advogados, suponho, devem saber que aquela suposta tentativa de comprar um delegado é o que há de mais grave contra o banqueiro. Aquilo, sim, dará trabalho à defesa.
Mas como manter a racionalidade quando há um Dantas no meio do caminho? A imaginação da tigrada se excita. Ele foi transformado numa espécie de bandido arquetípico do Brasil. Perto dele, todos seriam menos culpados. É claro que isso é uma facilitação. Mas digamos que não fosse: e os seus adversários? São mocinhos? Vamo supor que Dantas realmente conte com uma rede de apoio na imprensa, conforme acusa Protógenes. A pergunta que mesmo um idiota é capaz de fazer é esta: os inimigos do banqueiro estão apenas a serviço dos Evangelhos?
Lamento. Lamento profundamente que alguns tolos — muitos deles na própria imprensa — compartilhem de certa tese vigente entre alguns juízes, advogados e policiais segundo a qual é preciso atropelar, em alguns casos, os ritos legais caso se queira fazer justiça, de modo que a ilegalidade seria o caminho mais curto para a verdade. Quem cai nessa conversa passa a flertar com o estado policial. Estou fora! Não vão me pegar nessa conversa imbecil.
Li durante as minhas férias que o empresário Eike Batista, cuja casa foi invadida pela PF na chamada “Operação Midas”, vai contratar — ou já contratou — o advogado Márcio Thomaz Bastos, ex-ministro da Justiça, em cuja gestão se deu corpo a esta Policia Federal que resolveu assumir o protagonismo político. Não deixa de ser uma ironia, não é? Mas Eike faz a coisa certa. Se há alguém que entende do riscado é justamente o pai da criança. Tantas vezes critiquei Bastos aqui — e fora daqui também. Tantas vezes observei que os espetáculos circenses para “caçar os ricos” — Eliana Tranchesi foi a primeira vítima desse procedimento (e fazer tal observação não implica que ela não deva arcar com o peso das escolhas que sua empresa fez) — podiam satisfazer a sede de sangue (azul) do povaréu, mas não contribuía para fortalecer o estado de direito. Eis aí: à época, perguntaram-me quais eram os meus vínculos com a Daslu… Ora, os mesmos que mantenho com o Opportunity ou com as empresas de Eike Batista…
Uma hora a criatura acabaria se voltando contra o próprio criador. Mary Shelley, uma mocinha recém-saída da adolescência, sabia disso quando escreveu Frankenstein. Dr. Victor pagou caro por ter criado um monstrengo, que passou a fazer algumas exigências que ele não podia cumprir. O resultado é conhecido. Protógenes ousou na sua longa, longuíssima, investigação. Grampeou milhares de conversas ao longo de anos, mais do que, tudo indica, a própria polícia pôde ou pode ouvir. E chegou bem perto da sala do presidente Lula. Uma conversa de Gilberto Carvalho, chefe-de-gabinete da Presidência, com Luiz Eduardo Greenhalgh sugere que o banqueiro tinha aberto um canal no topo da República.
Era mesmo assim? Voltem vocês mesmos ao texto redigido pelo delegado. Eu não consigo fazê-lo sem associar Protógenes a Simão Bacamarte, o alienista de Itaguaí, uma das grandes criações de Machado de Assis. O médico, vocês sabem, prendeu a cidade inteira no manicômio antes que descobrisse onde estava a loucura. Bacamarte, no dizer de Machado, demonstrava seus teoremas com cataplasmas. O cataplasma de Protógenes é um telefone grampeado. Itaguaí é aqui.
Falarei muito desse caso ao longo da semana. E comentarei um artigo publicado pelo juiz Fausto De Sanctis no Estadão. Se não entendi o texto, sempre há tempo de alguém me explicar. Se entendi, então não há explicação.
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