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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

O Drummond de que falo abaixo

Totalmente off topic, sei disso, mas segue o poema de que falo abaixo na íntegra. Prece do BrasileiroCarlos Drummond de Andrade Meu Deus,só me lembro de vós para pedir,mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.Desculpai vosso filho, que se vestede humildade e esperançae vos suplica: Olhai para o Nordesteonde há fome, Senhor, e desesperorodando […]

Por Reinaldo Azevedo 28 ago 2006, 20h38 • Atualizado em 31 jul 2020, 23h17
  • Totalmente off topic, sei disso, mas segue o poema de que falo abaixo na íntegra.

    Prece do Brasileiro
    Carlos Drummond de Andrade

    Meu Deus,
    só me lembro de vós para pedir,
    mas de qualquer modo sempre é uma lembrança.
    Desculpai vosso filho, que se veste
    de humildade e esperança
    e vos suplica: Olhai para o Nordeste
    onde há fome, Senhor, e desespero
    rodando nas estradas
    entre esqueletos de animais.

    Em Iguatu, Parambu, Baturité,
    Tauá
    (vogais tão fortes não chegam até vós?)
    vede as espectrais
    procissões de braços estendidos,
    assaltos, sobressaltos, armazéns
    arrombados e – o que é pior – não tinham nada.
    Fazei, Senhor, chover a chuva boa,
    aquela que, florindo e reflorindo, soa
    qual cantata de Bach em vossa glória
    e dá vida ao boi, ao bode, à erva seca,
    ao pobre sertanejo destruído
    no que tem de mais doce e mais cruel:
    a terra estorricada sempre amada.

    Fazei chover, Senhor, e já! numa certeira
    ordem às nuvens. Ou desobedecem
    a vosso mando, as revoltosas? Fosse eu Vieira
    (o padre) e vos diria, malcriado,
    muitas e boas… mas sou vosso fã
    omisso, pecador, bem brasileiro.
    Comigo é na macia, no veludo/lã
    e matreiro, rogo, não
    ao Senhor Deus dos Exércitos (Deus me livre)
    mas ao Deus que Bandeira, com carinho
    botou em verso: “meu Jesus Cristinho”.
    E mudo até o tratamento: por que vós,
    tão gravata-e-colarinho, tão
    vossa excelência?
    O você comunica muito mais
    e se agora o trato de você,
    ficamos perto, vamos papeando
    como dois camaradas bem legais,
    um, puro; o outro, aquela coisa,
    quase que maldito
    mas amizade é isso mesmo: salta
    o vale, o muro, o abismo do infinito.
    Meu querido Jesus, que é que há?
    Faz sentido deixar o Ceará
    sofrer em ciclo a mesma eterna pena?

    E você me responde suavemente:
    Escute, meu cronista e meu cristão:
    essa cantiga é antiga
    e de tão velha não entoa não.
    Você tem a Sudene abrindo frentes
    de trabalho de emergência, antes fechadas.
    Tem a ONU, que manda toneladas
    de pacotes à espera de haver fome.
    Tudo está preparado para a cena
    dolorosamente repetida
    no mesmo palco. O mesmo drama, toda vida.

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    No entanto, você sabe,
    você lê os jornais, vai ao cinema,
    até um livro de vez em quando lê
    se o Buzaid não criar problema:
    Em Israel, minha primeira pátria
    (a segunda é a Bahia)
    desertos se transformam em jardins
    em pomares, em fontes, em riquezas.
    E não é por milagre:
    obra do homem e da tecnologia.
    Você, meu brasileiro,
    não acha que já é tempo de aprender
    e de atender àquela brava gente
    fugindo à caridade de ocasião
    e ao vício de esperar tudo da oração?

    Jesus disse e sorriu. Fiquei calado.
    Fiquei, confesso, muito encabulado,
    mas pedir, pedir sempre ao bom amigo
    é balda que carrego aqui comigo.
    Disfarcei e sorri. Pois é, meu caro.
    Vamos mudar de assunto. Eu ia lhe falar
    noutro caso, mais sério, mais urgente.

    Escute aqui, ó irmãozinho.
    Meu coração, agora, tá no México
    batendo pelos músculos de Gérson,
    a unha de Tostão, a ronha de Pelé,
    a cuca de Zagalo, a calma de Leão
    e tudo mais que liga o meu país
    e uma bola no campo e uma taça de ouro.
    Dê um jeito, meu velho, e faça que essa taça
    sem milagres ou com ele nos pertença
    para sempre, assim seja… Do contrário
    ficará a Nação tão malincônica,
    tão roubada em seu sonho e seu ardor
    que nem sei como feche a minha crônica.

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