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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura
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O desfile dos 15 pelados por um mundo melhor! Historicamente, o povo luta para proteger o seu traseiro, não para expô-lo em praça pública!

Os talibikers e os fascisbikers, nas redes sociais, prometem não me deixar em paz. Ai, que medinho!!! Eu também não os deixarei. Se não sabem viver em sociedade, podem contar comigo. Eu lhes darei noções básicas de civilidade. E uma delas é esta: eles não têm o direito de parar a cidade porque julgam ter […]

Por Reinaldo Azevedo Atualizado em 31 jul 2020, 09h21 - Publicado em 12 mar 2012, 08h17

Os talibikers e os fascisbikers, nas redes sociais, prometem não me deixar em paz. Ai, que medinho!!! Eu também não os deixarei. Se não sabem viver em sociedade, podem contar comigo. Eu lhes darei noções básicas de civilidade. E uma delas é esta: eles não têm o direito de parar a cidade porque julgam ter uma solução mágica para o trânsito. Não é solução, não é mágica, e eles são autoritários — expressão de um momento em que burguesotes desinformados resolvem exercer a sua cidadania à moda dos antigos mandonistas: privatizando o espaço público. E ainda pretendem falar em nome do povo e da democracia! Povo???

O make-up: dois cicloativistas se preparam para desfilar na Avenida Paulista

O make-up: dois cicloativistas se preparam para desfilar na Avenida Paulista – Foto Marlene Bergamo/Folhapress

 

 

A marcha dos pelados — aquela em que Gilberto Dimenstein enxerga o nascimento de uma nova aurora — reuniu no sábado à noite, segundo a Folha, 100 pessoas — pelados mesmo, havia 15. Seriam 15% os exibicionistas num grupo qualquer? Não sei. Desfilaram na Paulista. Pergunto de novo: “povo???” Por que não foram expor seus peruzinhos no Capão Redondo? Eles veriam o que faz “o povo” de verdade com gente amostrada.

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Estão bravíssimos comigo. Acusam-me, parece, de não cultivar a “cicloemotividade”. Eu acho que eles têm o direito de andar de bicicleta, sim!, e de correr riscos. Podem até pedir que se criem em todas as avenidas de São Paulo pistas, que ficarão desertas, para suas bicicletas. Se as terão, aí é outra coisa. Eu contestei seus métodos — inicialmente ao menos. À medida que eles tentaram argumentar, passei a questionar também o mérito. Não é que eles acreditam mesmo que a cidade já pode, hoje, reservar um lugar só pra eles em todas as vias? Fazer o quê? Todo homem tem direito a um grãozinho de loucura. Não tem é o direito de impô-lo a terceiros.

Gente que não me conhece e que jamais leu o blog vitupera: “Você, dirigindo a sua SUV — um deles jura já ter me visto pilotando uma Porshe Cayenne branca!!! —, deve se sentir o dono do mundo!!!” Uau! Eu nunca nem liguei um carro! Nunca cheguei a sentar no banco do motorista! Jamais dirigi! Faço quase tudo aquilo de que preciso a pé porque o bairro em que moro permite isso. Produzo, com certeza, menos carbono — e besteira — do que esses valentes amigos da humanidade. Assim, não era eu naquela Cayenne — uma rápida pesquisa na Internet me obriga a acrescentar: “Infelizmente!”. Acho que me sentiria muito bem dentro de uma, hehe. Se algum admirador milionário quiser me dar uma de presente… Eu só não prometo escrever um livro em três horas como Chalita nem praticar salto duplo twist carpado retórico!

Isso tudo é de um ridículo atroz. Eu espero que motoristas, ciclistas e pedestres sejam mais civilizados. Acho, sim, que o trânsito de São Paulo é perverso — e há vários motivos que concorrem pra isso. Não haverá solução no curto prazo. Acreditar que se possam estrangular os carros num espaço ainda menor é tolice. O trânsito de Nova York é muito melhor do que o de São Paulo, e não se vêem bicicletas nas ruas — só pra turista, nas imediações do Central Park. A capital paulista não é Amsterdã.

Quinhentas pessoas pararam a cidade? Cem desfilaram nuas ou seminuas? Eis aí! Ainda que fossem 10 mil! Continuariam a formar uma minoria que merece respeito, sim, mas que tem de aprender a respeitar. Ou nada feito.

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Lá no título, faço uma provocação. Digo que, historicamente, o povo luta para proteger o seu traseiro, não para expô-lo. Recorro a uma imagem jocosa, mas o assunto é sério. A banalização da nudez em reivindicações de protesto expressa uma visão deformada — lá vou eu comprar ainda mais briga! — do opressor, não do oprimido! É o opressor que considera que o corpo nu ofende e humilha. Por isso tantas fotos e filmes de prisioneiros nus em campos de concentração. Por isso, nas rebeliões em presídios, depois de vencido o motim, a ordem é esta: “Todo mundo sem roupa!” O corpo em pêlo deixa o homem sem qualquer defesa, diminui sua capacidade de reação e o expõe à expiação pública.

Não por acaso, esse “método de luta” não tem, vamos dizer, tradição revolucionária. Não se conhece uma só revolução socialista de pelados. Nada! Esse tipo de protesto ganha notoriedade em 1968 e nos anos posteriores, do desbunde. Extremistas oriundos das classes superiores, pouco importava a causa, buscavam ofender o establishment, esfregando, então, a nudez na cara do poder. Um jogo curioso: o “corpo”, que a classe operária protegia — e que os pobres protegem ainda hoje —, passava a ser exposto como instrumento de ofensa. Pergunte ao homem comum o que pensa a respeito. Ele continua apegado a um valor que o protegeu da violência dos fortes: o corpo é inviolável e tem de ser preservado. Essa gente é, acima de tudo, deploravelmente desinformada. Talvez falte aos pelados isso a que de modo comezinho chamamos “vergonha na cara”. Mas lhes falta também um mínimo de cultura política.

Mandam-me uma foto ineressante, que também saiu no Blog do Aluizio Amorim. Mussolini, ele mesmo, passa em revista uma tropa de fascistas, todos nas suas bicicletas. É claro que é uma provocaçãozinha para esses talibikers e fascisbikers sem humor. São 100? São 500? Nas redes sociais, eles fingem ser milhões: xingam, vituperam, demonizam, ameaçam… E tudo porque, eles dizem, nada mais fazem do que lutar por um mundo melhor.

mussolini-bicicletas

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