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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

MONTY PYTHON EM COPENHAGUE

Houve um tempo em que havia humor no cinema para pessoas com mais de 15 anos e que não fossem, assim, de todo avessas aos livros. O Monty Python está entre as melhores coisas que já se produziram para esse público. Já falei sobre o grupo britânico aqui algumas vezes. Ontem, vi as três estrelas […]

Por Reinaldo Azevedo 15 dez 2009, 07h17 • Atualizado em 5 jun 2024, 18h11
  • Houve um tempo em que havia humor no cinema para pessoas com mais de 15 anos e que não fossem, assim, de todo avessas aos livros. O Monty Python está entre as melhores coisas que já se produziram para esse público. Já falei sobre o grupo britânico aqui algumas vezes. Ontem, vi as três estrelas brasileiras naquela bobajada da Conferência do Clima: a ministra Dilma Rousseff (PT), o governador José Serra (PSDB-SP) e a senadora Marina Silva (PV-AC). E me lembrei de A Vida de Brian, um dos filmes geniais feitos por aquela turma. Já volto ao cinema. Antes, uma passada em Copenhague.

    Dilma não está disposta a dar grana nenhuma para constituir um fundo de combate ao aquecimento global. Acha que os culpados pela poluição são os países ricos — o Brasil, como emergente, seria até candidato a ganhar uns trocos. Marina Silva acredita que o país pode dar um exemplo, já que até empresta recursos para o FMI (!?). Serra também está nessa. Eis a fala dos três em entrevistas ontem:

    Serra: “O Brasil devia contribuir, porque se o Brasil se dispõe a fazer, e é um país em desenvolvimento, sem dúvida nenhuma vai ampliar a pressão política sobre os países desenvolvidos, que são os que fizeram a grande poluição do mundo. São os principais responsáveis pelo efeito estufa. Vai ser uma pressão a eles, para que compareçam com recursos substanciais”.

    Marina: “O Brasil, que até empresta recursos para o FMI, poderia fazer um gesto e colocar nessa cesta em defesa do planeta talvez, quem sabe, US$ 1 bilhão para fazer com que os demais países também se sintam responsáveis, principalmente os desenvolvidos, pelas emissões históricas”.

    Dilma: “É que US$ 1 bilhão não faz nem ‘cosquinhas’. Os valores, como vocês vão ver ali na reunião, estão em torno de US$ 120 bilhões ou US$ 150 bilhões, os menores. Tem valores de US$ 500 bilhões. A gente não pode só fazer gesto, o que a gente tem que fazer são medidas reais, concretas, comprometidas. Por isso, as coisas têm que ser feitas no seu devido processo”.

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    Com quem eu concordo? Com ninguém, ora bolas! Reparem que os três políticos falam dos países ricos em tom de condenação, como se, até agora, eles tivessem prejudicado a humanidade. Então precisamos voltar ao filme A Vida de Brian. Na cena abaixo, um grupo revolucionário planeja um atentado terrorista contra os romanos. O plano é seqüestrar a mulher de Pôncio Pilatos e dar ao governador dois dias para eliminar a presença dos romanos da região. Ou, dizem, cortarão a cabeça da dita-cuja em pedaços. E deixarão claro que a culpa pela execução é dos invasores. Afinal, dizem eles, os romanos já os sangraram bastante. Vejam o trecho em que o líder dos revolucionários explica por que os romanos são maus e têm de ser expulsos. Transcrevo as falas em seguida:

    [youtube https://www.youtube.com/watch?v=ExWfh6sGyso?wmode=transparent&fs=1&hl=en&modestbranding=1&iv_load_policy=3&showsearch=0&rel=1&theme=dark&w=425&h=344]

    — Já nos sangraram, os bastardos. Já nos tomaram tudo o que tínhamos. E não só de nós. Dos nossos pais e dos pais dos nossos pais.
    E dos pais dos pais dos nossos pais.
    Sim…
    E dos pais dos pais dos pais dos pais…
    Certo, Stam. Não precisa insistir. E o que eles nos deram em troca?
    O aqueduto.
    Como?
    O aqueduto.
    Oh, sim, sim. Eles nos deram isso, é verdade.
    E o saneamento.
    Ah, é, saneamento, Reg! Você lembra como a cidade era…
    Certo. Eu concedo que o aqueduto e o saneamento são duas coisas que os romanos fizeram.
    E as estradas.
    Bem, e obviamente as estradas. Nem era preciso falar disso.
    Mas fora o saneamento, o aqueduto e as estradas…
    A irrigação.
    A medicina.
    A educação.
    A Saúde.
    Tudo bem, já chega!
    E o vinho.
    Ah, é… É verdade. Isso é algo que vai nos fazer falta se os romanos forem embora, Reg…
    Casas de banho públicas.
    E agora é seguro andar nas ruas à noite.
    Ah, sim, os romanos certamente sabem manter a ordem. Vamos reconhecer: são os únicos que poderiam fazer isso num lugar como esse.
    Tudo bem, tudo bem, mas fora o saneamento, a medicina, a educação, o vinho, a ordem pública, a irrigação, as estradas, o sistema de água e a saúde pública, o que os romanos fizeram por nós?
    Trouxeram a paz!
    O quê? Oh… Paz? Sim… Cale-se!

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    Voltei
    Não conheço nada melhor do que este menos de um minuto e meio de humor para desmoralizar todas as teses antiimperialistas que ainda correm o risco de fazer algum sucesso.

    Embora as posições dos três políticos não seja a mesma, há nelas esse certo ranço antiimperialista. Podem divergir na abordagem, mas há a consideração que avalio essencialmente errada de que “os romanos” — no caso, os americanos ou os ricos — aqueceram o mundo apenas em seu próprio benefício. Serra e Marina querem tirá-los desse poço moral com o exemplo. Dilma prefere jogar o problema no colo dos gringos.

    De súbito, nota-se, o mundo global se torna não bisonhamente regionalista. Mais um pouco, e alguém indaga: “Afinal, o que é que os americanos nos deram?”

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