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Reinaldo Azevedo

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Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Marcha Sobre Brasília e tomada do estado

Brasília assistiu ontem à Marcha das Margaridas, uma manifestação de 15 mil “trabalhadoras rurais” financiada com recursos da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), do governo federal e de três estatais: Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste e Petrobrás. Lula discursou no evento, em tom de campanha eleitoral — faltou o Banco do Brasil com […]

Por Reinaldo Azevedo 23 ago 2007, 07h30 • Atualizado em 31 jul 2020, 22h14
  • Brasília assistiu ontem à Marcha das Margaridas, uma manifestação de 15 mil “trabalhadoras rurais” financiada com recursos da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura (Contag), do governo federal e de três estatais: Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste e Petrobrás. Lula discursou no evento, em tom de campanha eleitoral — faltou o Banco do Brasil com sua propaganda do “Dois mais Um”… — e voltou a falar mal das elites. Apesar do uso evidente do dinheiro público, Carmem Foro, coordenadora da marcha, deu o seu recado: “Tivemos que fazer muita ação entre mulheres, vender bolo, bordar chapéus, vender cabrito, fazer vaquinhas para chegar aqui”. É só a folclorização do pobrismo militante que marca estepaiz. “Nós que apoiamos o presidente Lula não cansamos de lutar”, emendou Carmen. Segundo a Contag, o custo total do ato passou de R$ 10 milhões — cerca de R$ 1 milhão viria desse apoio oficial. Na verdade, todo o dinheiro saiu dos cofres públicos. A Contag não gera receita. Ela vem dos programas oficiais de incentivo à agricultura familiar. Eu e você ajudamos a pagar a manifestação de apoio ao Babalorixá de Banânia.

    Vasculhei os jornais. Não há e não haverá uma miserável crítica ao uso de dinheiro público numa mobilização de caráter obviamente político. Vê-se que a tal Carmem está dando uma resposta ao Cansei, a mais demonizada manifestação havida no Brasil em período democrático. Nunca tantos protestaram contra um protesto como nesse caso. Até onde sei, os organizadores usaram seus próprios recursos. O mesmo se dá com os que perseguem Lula com vaias. Compram eles mesmos o seu nariz de palhaço. Se a CEF, o Banco do Nordeste e a Petrobras podem patrocinar uma manifestação a favor do governo, dêem-me um só motivo para que não financie uma contra. As estatais não pertencem a Lula ou ao PT, mas ao estado brasileiro, que não tem partido. No caso da Petrobras, tanto pior: é uma empresa de capital aberto. Os investidores estão ajudando a financiar o proselitismo oficial.

    Vejam um vídeo que postei às 19h02 de ontem. Trata-se do material de convocação e divulgação do 3º Congresso do PT, que acontece no fim do mês. O partido retoma a sua retórica socialista, declara seu vínculo com o famigerado Foro de São Paulo e não economiza palavras: “Para extinguir o capitalismo e iniciar a construção do socialismo, é necessário realizar uma mudança política radical. Os trabalhadores precisam transformar-se em classe hegemônica e dominante no poder de estado. Não há qualquer exemplo histórico de uma classe que tenha transformado a sociedade sem colocar o poder político de estado a seu serviço”. E mais adiante: “Não basta chegar ao governo para mudar a sociedade. É preciso mudar a sociedade para chegar ao governo.”

    Leiam o trecho que está em vermelho à luz, agora, da Marcha das Margaridas. Trata-se, obviamente, de uma confissão: o partido está colocando O ESTADO A SERVIÇO não exatamente de uma classe, mas de seus próprios interesses. Cadê os anões do jornalismo para acusar o cinismo dos manifestantes? Li ontem o texto de um senhor, no Estadão, que esculhambava, uma vez mais, o Cansei. Segundo ele, um dos participantes pagou uma pequena propina para conseguir sei lá que benefício. Impressionante como essa gente convive com pessoas dadas a canalhices. Eu não convivo. Se meus amigos fazem safadezas, têm ao menos o bom gosto de não me contar. E sabem por quê: não acharei nem meritório nem engraçado. Sabe cada um os amigos que lhe ficam bem.

    Rigor e laxismoVejo a imprensa, na média, cobrir com rigor o mensalão (de volta com o julgamento no STF) e o imbróglio Renan Calheiros, para citar dois casos. É uma pena que não seja rigorosa também na cobertura do que eu chamaria “questões institucionais”. Ora, um jornalismo que se cala diante de um fato como o de ontem — uma manifestação pró-Lula financiada com dinheiro público — perdeu os parâmetros e as medidas do regime democrático. Vejam lá a confissão no vídeo do PT. Parece-me evidente que o esforço para “mudar a sociedade” está sendo bem-sucedido. Já não se distingue com clareza o legal do ilegal.

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    Resulta que somos, como imprensa, rigorosos, sim, com o crime, mas laxistas com suas supostas motivações nobres. Afinal, desdenhar da “direita cínica” que vai à rua dizer que “cansou” corresponde a bater nos vilões de sempre — as tais “elites” brasileiras. Já ousar indagar a legalidade do apoio oficial a uma marcha de apoio ao Estimado Líder parece coisa imprópria. Afinal, aquelas senhoras que lá estavam eram “agricultoras”… Errado! Eram parte de um projeto de poder. Projeto que não inventei e cujas intenções estão claramente reveladas no tal vídeo. Lula, diga-se, nele aparece em meio a líderes como Hugo Chávez, Evo Morales e Fidel Castro.

    Marcha das Margaridas? Eu a chamaria de “Marcha Sobre Brasília”, pisoteando a legalidade. Mais uma peça do meticuloso trabalho de tomada do Estado que está em curso. E anunciado em vídeo.

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