Imperialismo, consenso e saliva no cabelo
Alguns leitores — até gente que gosta do blog — se indignam: por que dou tanta trela à eleição americana? Eu só? O mundo inteiro faz isso, o que reflete a importância dos EUA — uma importância declinante, é verdade, coisa que, para ser franco, não me agrada nada. Eu gosto do imperialismo americano, sabiam? […]
Em Obama parece haver certa crença mágica — eu ainda não consegui estabelecer um liame seguro entre o que ele diz e a realidade — de que os Estados Unidos serão melhores e mais seguros se o mundo passar a ver o país de outro jeito. McCain parece apostar menos nessa perspectiva — que a mim, de fato, se mostra ilusória. Mas essas duas construções discursivas plasmam imagens públicas, que têm funcionado mais fora dos EUA do que dentro: o universalista boa praça contra o localista durão. E vocês sabem: boa parte do mundo que detesta a liderança americana prefere o universalista boa praça. Não sei se consegui emprestar à frase o devido sabor da ironia.
Ah, bem, prefiro McCain a Obama, todo mundo sabe. Mas de ontem pra hoje, dedico mais linhas às eleições porque estou me divertindo vendo a imprensa, especialmente a CNN. Depois que seus comentaristas ficaram nocauteados ontem com o discurso de Sarah Paulin, demorou apenas algumas poucas horas para que Larry Ling, com a “legitimidade” de ser republicano, mobilizasse um verdadeiro batalhão de mulheres do staff do Obama para dizer o quão detestável tinha sido seu discurso. Fez isso também com o discurso de Obama: os repulicanos comentaram. Tudo no padrão CNN: havia comentarista loura, morena, ruiva, negra, gorda, magra… Os jornalistas, sob a inspiração de Carl Bernstein, lamentavam a agressividade de Sarah, sugerindo que aquilo seria ruim para os próprios republicanos — como se qualquer um ali desejasse algo de bom para republicanos…
Mas, claro, ninguém assumia que a sua era uma perspectiva partidária. Afinal, como sabem, partidários são apenas aqueles “cães raivosos” da Fox News. As pombinhas da CNN se alimentam de carne, mas parecem dar apenas suas bicadinhas na ambrosia dos deuses do progressismo.
Ontem, cometei o que considerei ser “a” imagem da convenção. A penúltima dos cinco filhos de Sarah, uma garotinha de uns quatro anos, molhou a palma da mão na saliva por das vezes e passou nos cabelos espetados do caçulinha, o bebê de colo que tem síndrome de Down. Ao perceber que houvera sido bem-sucedida na tarefa de colar os fios ao couro cabeludo, sorriu satisfeita e carinhosa.
Sabem o que a “neutra” CNN fez hoje (sempre lembrando que os “cães raivosos” estão na Fox News…)? Editou essa imagem junto com uma outra, em que Paul Wolfowitz — o cabeludo e republicano ex-presidente do Banco Mundial — molha o pente na saliva e ajeita o cabelo. Está claro, não? Não importa a idade, não imposta a graça (a menininha é uma belezuca, e Wolfowitz, um feioso ), republicanos são todos assim mesmo: meio nojentos.
Gostaria muito que McCain ganhasse, mas nem escrevo tanto a respeito por isso. O que me causa asco é essa manipulação descarada da realidade sob o pretexto de se produzir informação neutra, isenta. Ademais, é verdade: tenho certo prazer de andar na contramão, de lutar contra consensos. Às vezes ocorre de eu interrogá-los e, então, chegar à conclusão de que são válidos. Nem todas as coisas merecem contestação. Só a esmagadora maioria.