GRAMÁTICA, JORNALISMO E FILOSOFIA DA LINGUAGEM
Um dos meus posts recentes de que mais gosto é aquele cujo título é “’Quem não deve não teme’ é uma frase fascistóide” (ainda na home). Sustento lá, digo por quê, que seu sentido político é diferente de “Só teme quem deve”. Aí escreve um leitor:“quem não deve não teme”.“só teme quem deve”Li e reli. […]
Aí escreve um leitor:
“quem não deve não teme”.
“só teme quem deve”
Li e reli. Apliquei lógica formal (acho que hoje não se ensina mais na escola). As duas frases são a mesmíssima coisa. Se só teme quem deve, quem não deve não teme, concorda?
Publicar Recusar (Anônimo) 19:36
Comento
Não!
A graça do post está justamente em demonstrar que essa obviedade pode ser menos óbvia quando se trata de política e instituições. Acho que você tem de reler o post. Estamos no terreno da filosofia da linguagem. A escolha das palavras faz diferença. Vamos a um exemplo comezinho. Leia duas frases com a mesma informação:
– O cachorro mordeu o menino.
– O menino foi mordido pelo cachorro.
Aplique o que você chama “lógica formal”. Não há diferença, certo? Nos dois casos, o com o verbo na voz ativa e o com o verbo na voz passiva, noticia-se a mordida. Nos dois casos, dou destaque ao sujeito. Só que o sujeito da frase na voz ativa é “o cachorro”, e o da frase na voz passiva é “o menino” — ficando relegado o autor da ação (o Totó) a um mero “agente da passiva” (parece meio pornô, mas não é…).
Não, meu caro. “Quem não deve não teme” e “só teme quem deve”, naquele ambiente político sobre o qual trato, faz toda a diferença. Quando menos, o “Quem não deve não teme” estende o ambiente de suspeição ao conjunto da sociedade. “Só teme quem deve” restringe o temor aos devedores. A gente só consegue apreciar certas disciplinas e saberes — como literatura, filosofia e teoria política — se começa a prestar atenção a estes detalhes.
Sei, os dias andam difíceis. Ex-jornalistas, que até tiveram alguma respeitabilidade, chegaram à Internet e exigem muito pouco dos seus leitores. Nem poderia ser diferente: sem os revisores e os diretores de redação, evidenciaram sua indigência gramatical, intelectual e moral. Escrevem para energúmenos. Aqui se pede um pouco de esforço. Mas você está no caminho certo. Tentou perceber a diferença. É um bom começo.
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